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A análise da evolução da Covid-19 em SC por parte do governo estadual está equivocada

“Os casos ativos têm apresentado queda sustentada nas últimas semanas. Isso se deve aos decretos de enfrentamento da pandemia, fato que vai refletir um distensionamento da rede hospitalar para frente”[2].

Desde março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a COVID-19 como pandemia global, autoridades sanitárias internacionais e brasileiras vêm alertando para a necessidade da adoção de medidas preventivas efetivas para se evitar o colapso dos sistemas de saúde. No Brasil – e também em Santa Catarina – parece que esses alertas não foram bem compreendidos, considerando-se o cenário caótico que estamos vivenciando nos últimos meses. No caso particular de SC, um dos dados mais alarmantes desse cenário nos três primeiros meses de 2021 foi a morte de mais de 250 pessoas hospitalizadas que estavam esperando por vaga em UTI em todo o estado. Além disso, neste exato momento 303 pessoas estão aguardando atendimento em um leito de UTI.

Desde o início da pandemia no estado de Santa Catarina temos acompanhado semanalmente sua evolução por meio de um conjunto de indicadores que estão sendo utilizados por todos os segmentos técnicos e científicos envolvidos com análises dessa doença. Assim, neste artigo apresentaremos brevemente o comportamento de alguns desses indicadores no mês de março no estado de Santa Catarina exatamente para mostrar a inconsistência da leitura feita por autoridades governamentais catarinenses.

O primeiro deles diz respeito à evolução da média semanal móvel de casos no mês de março de 2021, conforme tabela 1. Esse indicador é recomendável porque ele auxilia na normalização das informações que podem ser afetadas pela redução de registros, especialmente nos finais de semana, quando o número de pessoas das equipes de saúde em atividade é reduzido. Inicialmente se observa que houve poucas alterações na evolução do número de pessoas contaminadas ao longo do mês de março de 2021, uma vez que o registro de novos casos atingiu a marca de 4.442 registros diários ao final do mês, patamar que é apenas 2% inferior ao verificado no início do mesmo mês. Isso significa que, além da evolução da doença ter continuado, ela se mantém num patamar extremamente elevado no estado. Tal situação será corroborada mais adiante por meio da análise de outros dois importantes indicadores.

Tabela 1: Evolução da média semanal móvel de casos e óbitos em SC (março 2021)

artigo lauro tabela 1

Fonte: Boletins Epidemiológicos da SES-SC. Elaboração: NECAT-UFSC.

 

O segundo aspecto revelado pela tabela acima foi a verdadeira explosão de óbitos registrada no estado de SC em apenas um mês, ou seja, em apenas 30 dias ocorreram 3.394 mortes, indicando que aproximadamente 5 pessoas por hora perderam suas vidas. Com isso, nota-se que a média semanal móvel aumentou em 111% em 28.03.2021 em relação ao início de março. Esse número absoluto registrado nesse último mês equivale a todos os óbitos ocorridos entre os meses de março de 2020 e outubro de 2020, isto é, em apenas um mês foram registrados mais óbitos que em oito meses de incidência da pandemia.

Diante desse cenário trágico, o governador catarinense se eximiu de fazer qualquer menção. Neste sentido, é importante recordar como ele se expressou sobre o mesmo assunto em uma entrevista a um canal de TV no mês de dezembro de 2020: “o único indicador verdadeiro é o número de óbitos. Neste caso, SC está muito bem porque é o estado que apresenta a menor taxa de letalidade do país”[3]. Como o cenário se modificou totalmente, o assunto desapareceu das falas do governador.

Ouro indicador importante a se considerar é a evolução do Coeficiente de Incidência da doença no estado, conforme tabela 2. Esse coeficiente indica o número da doença por cada 100 mil pessoas em um determinado local e período. Na essência, tal indicador mede a frequência de uma doença em um determinado local, auxiliando na adoção de medidas necessárias para o controle da mesma. Quanto maior for esse coeficiente, maior é o número de pessoas contaminadas na localidade.

Tabela 2: Evolução do Coeficiente de Incidência da doença em SC e no Brasil por 100 mil habitantes (março 2021)

tabela 2 lauro correta

Fonte: Boletins Epidemiológicos da SES-SC. Elaboração: NECAT-UFSC.

 

Esses dados revelam o alto grau de contaminação da população de Santa Catarina pela COVID-19, uma vez que o estado apresenta há meses o quarto maior coeficiente de incidência do país, ficando atrás apenas do Amapá, Roraima e Distrito Federal. Quando se compara o coeficiente de SC em relação ao Brasil a cada 100 mil habitantes, nota-se que o estado catarinense tem um coeficiente de incidência da doença de 1,87 vezes ao país. Quando se compara ao coeficiente da região Sul do país, cuja geografia e condições econômicas e sociais são muito semelhantes, observa-se que SC tem um coeficiente de 1,36 vezes ao da região Sul, sendo que esse coeficiente é 2,24 vezes o menor resultado observado na região Nordeste.

Esse é mais um indicador que revela a evolução desenfreada da doença em todo o território catarinense, não cabendo neste momento análises pontuais e equivocadas sobre o processo contaminatório. Ao contrário, o que essas informações estão dizendo é que o vírus continua circulando livremente no estado, inclusive revelando que os mecanismos de controle adotados até o momento não estão sendo suficientes para evitar a continuidade do contágio.

Esse processo contaminatório também é mensurado estatísticamente pelo Rt, indicador que mede a taxa de transmissão do vírus na população. Quando esse número efetivo de reprodução (Rt) é igual ou maior que 1, significa que o agente infeccioso continua circulando fortemente, portanto exigindo medidas efetivas para frear a curva de contágio. No caso de SC, dados da matriz de risco elaborada pelo governo estadual e divulgados em 27.03.2021 revelaram que em praticamente todas as regiões esse indicador estava próximo ou superior a 1, patamar que mantém a situação em nível gravíssimo, ou seja, que o processo de contágio permanece sem controle no estado.

Finalmente, outro indicador relevante a se considerar é a evolução do Coeficiente de Mortalidade no estado, conforme tabela 3. Esse coeficiente é uma das medidas mais relevantes em saúde pública porque ele indica a relação entre o número total de óbitos pela população de um determinado local exposta ao risco de padecer. Por possibilitar comparações temporais entre unidades geográficas, no caso brasileiro usa-se frequentemente essa relação na proporção de 100 mil habitantes.

Tabela 3: Evolução do Coeficiente de Mortalidade da doença em SC e no Brasil por 100 mil habitantes (março 2021)

artigo lauro tabela 3

Fonte: Boletins Epidemiológicos da SES-SC. Elaboração: NECAT-UFSC.

 

Inicialmente deve-se registrar o baixo patamar desse coeficiente em alguns estados populosos do país, como são os casos da Bahia e de Minas Gerais, sendo que a BA possui o segundo menor coeficiente do país, enquanto MG possui o quarto coeficiente no momento, embora seja a terceira unidade da federação mais populosa do país.

Na região Sul do país, Santa Catarina apresenta o segundo menor coeficiente de mortalidade dentre as três unidades federativas da região, embora Santa Catarina seja o estado com maior número de casos. Registre-se que no mês de março SC saiu da 7ª posição no ranking nacional para a 13ª, comportamento que é explicado pelo aumento expressivo dos óbitos, especialmente em março. Com isso, a distância do indicador catarinense em relação ao conjunto do país se reduziu para apenas 1,5%.

O conjunto dessas informações revela que a situação da pandemia em SC se agravou muito no mês de março, indicando claramente que as medidas adotadas até o momento ainda não surtiram os efeitos necessários para achatar a curva de contágio. Mesmo com uso de um indicador frágil (casos ativos), o Governador tentou passar uma ideia de que a pandemia está sob controle. Além disso, o próprio comportamento do indicador utilizado pelo governador não está mostrando nenhuma “tendência sustentada”.

 Em contraposição a essa análise “apressada” do Governador de SC, mostrou-se neste breve artigo que os indicadores mais relevantes (média semanal móvel de casos, evolução do Rt e média semanal móvel de óbitos) continuam apresentando uma tendência robusta de crescimento, implicando na necessidade de mais medidas preventivas para reduzir a curva de contágio da população catarinense e, com isso, abrir a possibilidade para uma redução também do número de óbitos.


 

Fonte: Lauro Mattei[1] , NECAT/UFSC

 

[1] Professor titular do curso de Economia e do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC.     Coordenador geral do NECAT-UFSC e pesquisador do OPPA/CPDA/UFRRJ. Email:l.mattei@ufsc.br

[2] Manifestação do Governador de SC em 29.03.2021, a qual foi repercutida nos meios de comunicação do próprio governo estadual: sc.gov.br/notícias

[3] Aliás, ao longo de toda a pandemia ficaram conhecidos dois bordões frequentemente utilizados pelo Governador de SC: 1) O estado catarinense possui a melhor gestão da pandemia; 2) SC possui a menor taxa de letalidade do país.

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