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A violência das torcidas da política foi pior que as do futebol em 2018

Por Leonardo Sakamoto

 

O campeonato brasileiro acabou, neste domingo (2), com a vitória – antecipadamente conhecida – do (meu) Palmeiras. A cerimônia de entrega da taça ocorreu, em um Allianz Parque lotado, com a presença do presidente eleito Jair Bolsonaro. torcedor do time.

A cena, colocando futebol e política juntos, diz muito sobre 2018 – ano em que a violência das torcidas organizadas na política ganhou ares daquela perpetrada por torcidas organizadas dos times de futebol. Na verdade, foi até pior – não tanto pela contagem de corpos ou pela selvageria, mas pela extensão, de caráter nacional, e por suas consequências no tecido social brasileiro – que serão sentidas por muitas temporadas.

Isso sem contar que há torcidas políticas que abandonam a razão muito antes do que alguns torcedores de times de futebol. Pois apesar de muitos destes últimos estarem envolvidos em atos de barbárie, seus componentes ao menos sabem quando o seu time dá vexame, protestam contra os dirigentes, vaiam a própria esquadra, reconhecem jogadas de craque do adversário. Enquanto, que, do outro lado, muita gente que se torna torcedora fanática na política adota ares de seita fundamentalista religiosa, dividindo o mundo entre o divino.

E, claro, é ele quem está ao lado de Deus.

Por mais que entendamos os processos que levam à desumanizaçào do adversário ou mesmo os mecanismos que fazem com que pessoas pacatas se tornem monstros descontrolados quando em bando, não consigo encontrar uma palavra melhor do que ‘idiota’ para me referir a quem se atraca por causa de um jogo de futebol ou de uma eleição. Porque, no fundo, não é o futebol ou a política o motivo da agressão. Há algo maior no fundo. Ambos são apenas o instrumento de descarga.

Poderíamos falar de nosso machismo, em que educamos meninos para se comportarem como monstrinhos. Ou da incapacidade de lidar com a falta de sentido ou de controle da própria vida, transferindo frustração do dia a dia para um ato de violência protegido pelo anonimato da manada. Ou ainda do isolamento digital, físico ou social que dificulta o reconhecimento da outra pessoa como detentor dos mesmos direitos.

Minha hipótese é de que o sujeito que usa da violência para espancar outros torcedores é incapaz de canalizar a energia para o que realmente afeta sua dignidade. Como protestar contra filas em hospitais, aumentos na passagem de ônibus, um salário mínimo ridículo, a falta de locais de lazer, a educação insuficiente que seus filhos recebem em escolas públicas e privadas, as moradias precárias que desabam com o vento, patrões que passam a mão na sua bunda, empresas que só enxergam o lucro e passam por cima de tudo, reformas que tiram direitos dos trabalhadores da ativa e dos aposentados. No máximo reclama contra o ‘estado das coisas’ porque não consegue identificar as origens de sua insatisfação. Ou porque consegue muito bem.

Como bom cão de guarda de preconceitos, desconfio que é capaz de xingar quem tenta se insurgir contra a violência da desigualdade social e ocupar um imóvel rural ou urbano vazio, tornando-o sua moradia. É capaz de afirmar que reside em uma ocupação como essa a verdadeira violência e não aquela perpetrada por ele mesmo. Seja por não ter se conscientizado sobre quem ele é na sociedade, seja por ter sido sistematicamente alienado sobre tudo isso.

Prefere seguir “líderes” que propõem soluções fáceis e violentas para o vazio que ostentam no peito. Como as lideranças que prometem paz através da imposição do silêncio ao outro – seja esse outro o adversário que diz que seu time é o melhor, seja homossexuais, transexuais, mulheres, entre outros, que exigem ser tratados com os mesmos direitos. Temos visto isso por declarações de jogadores de futebol que dizem apoiar políticos violentos que prometem a imposição do silêncio. Políticos que faltaram à segunda aula sobre declarações de jogadores de futebol que dizem apoiar políticos violentos que prometem a imposição do silêncio. Políticos que faltaram à segunda aula sobre democracia, acreditando que ela é apenas ‘o governo da maioria”, perdendo a explicação de que a  maioria deve respeitar a dignidade das minorias.

É interessante como se dá a formação de matilhas pela identidade reativa a um outro grupo ao invés da percepção das características do seu próprio grupo. Ou seja, muita gente se une pelo ódio e não pela solidariedade. O problema é que a união pela negação é incapaz de criar um projeto próprio de país, mas apenas algo com sinal invertido.

Tente criticar o governo Dilma Rousseff, por exemplo, a quem a santificou por ter sofrido o impeachment, esquecendo todos os seus “pecados” contra população indígenas, ribeirinhas, quilombolas, trabalhadores rurais, sem contar ao meio ambiente e, consequentemente, às futuras gerações.

Há pessoas que parecem não aceitar serem questionadas. Talvez para afastar os medos e inseguranças sobre suas próprias crenças. Acredito que meu ponto de vista está correto. E defendo-o. Mas sei que isso não faz dele o único. Uma outra pessoa pode defender que a forma mais correta de acabar com a fome, a violência, as guerras, a injustiça seja por  outro caminho.

É duro acreditar nisso neste momento de crise política, econômica e social. E, pior: com profissionais das redes sociais que distribuíram granadas à população para que ela entrasse em uma guerra fratricida durante as eleições. Por isso, seria bom se buscássemos a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e nos perguntemos se achamos que estamos certos a todo o momento, uma vez que nossa natureza nào de certezas e sim de dúvidas e falhas que só poderão ser melhor percebidas no tempo histórico.

Há pessoas que podem até se autointitular de direita, de esquerda, progressistas ou conservadores, pessoas defendendo a justiça social ou contra a corrupção. Ou mesmo corintianos, coritibanos, palmeirenses, sãopaulinos, flamenguistas, gremistas. Mas, em verdade, muitos não se importam com o campo ideológico em que estão ou com o time para o qual torcem. Isso é apenas o canal escolhido para extravasar sua violência.

Claro que, em última instância, há também aqueles com sérios distúrbios psicológicos ou, mesmo, sociopatas que se escondem em grupos políticos ou torcidas de futebol para praticar seus delitos, sem senso moral ou responsabilidade, sem sentimento de culpa ou reflexão sobre as consequências. Estou excluindo desta discussão aqueles que são pagos para tocar o terror e agredir fisicamente um grupo adversário. tocar o terror e agredir fisicamente um grupo adversário.

Sabemos, é claro, que temos um déficit de formação para a cultura política do debate e para a convivência com a diferença e que, infelizmente, não somos educados, desde cedo, para saber ouvir, falar, respeitar e, a partir daí, construir consensos ou saber lidar com o dissenso. Não somos educados para a tolerância e a noção de limites. O mesmo se repete, sem dúvida, com a subversão da fé. E determinados líderes e seguidores que transformam suas religiões em legiões de exércitos para enfrentar o mundo.

Por fim, parte dos brasileiros foi ensinado que a violência é o principal instrumento de resolução de conflitos. Por falta ou fraqueza de instituições públicas ou sociais confiáveis que assumam esse papel, por achar que alguns possuem mais direitos que outros por conta de dinheiro ou de músculos, por alguma patologia que nunca consegui entender muito bem.

O Brasil não é um país que respeita a dignidade do outro e não há perspectivas para que isso passe a acontecer pois, acima de tudo, falta entendimento sobre direitos humanos e, consequentemente, apoio, da própria população. Que, bem treinada pelos programas do tipo “espreme que sai sangue’ na TV e por “sábios grupos” de WhatsApp, acha isso uma “coisa de proteger bandido” e esquece que a própria liberdade de professar uma crença  entendimento sobre direitos humanos e, consequentemente, apoio, da própria população. Que, bem treinada pelos programas do tipo “espreme que sai sangue’ na TV e por “sábios grupos” de WhatsApp, acha isso uma “coisa de proteger bandido” e esquece que a própria liberdade de professar uma crença ou de não ser agredido gratuitamente por dizer o que pensa diz respeito a direitos humanos.

Gostamos de viver as tradições por aqui. Como o direito de deixar claro quem manda e quem obedece. Se necessário, através da porrada – que é o que realmente nos une e nos faz brasileiros.

São uma minoria de violentos. Na política, no futebol, na religião. E que, portanto, deveria ser tratada ou expelida por seus companheiros políticos, suas torcidas, os outros fiéis. O problema é que o resto da sociedade, por cumplicidade ou indiferença, segue no papel de refém e espectadora de um show de horrores que parece não ter fim.

 

  • Capa: Luis Moura, Estadão

Fonte: Blog do Sakamoto

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