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Chora o mundo indígena por Marcondes Nambla

Quando se vai uma vida, vai-se um mundo inteiro. Porque cada pessoa carrega em si o universo. É por isso que a morte, nossa única certeza, é tão dolorosa.  Mais do que perdermos alguém que amamos é um mundo inteiro que se desmancha. Agora imaginem quando esse mundo é destruído por uma mão violenta. Um assassinato: que corta a existência na brutalidade, no preconceito, na intolerância. 

Foi assim que a vida de Marcondes Nambla se interrompeu. Um homem, um pedaço de madeira e a gana insana de exterminar o que é diferente. Um homem contaminado por uma pedagogia que o mundo não-índio vem fortalecendo desde que as caravelas aportaram no Porto Seguro. Aquele que é diferente, o que não fala minha língua, o que não caminha por onde ando, o que se veste estranho, o que tem pele escura, o “outro”, esse tem de ser eliminado. 

Foi assim que os portugueses foram exterminando todos aqueles que não faziam parte do seu mundo. E depois, mais tarde, seguiram fazendo a mesma coisa os nascidos nessa terra e os imigrantes. Matavam os índios para sua “segurança”. Afinal, roubavam suas terras, e eles revidavam. E eles eram os “maus”. O tempo passou, as terras foram tomadas e os poucos povos que sobraram andam por aí a mendigar seu próprio território. E continuam sendo expulsos, roubados e assassinados. 

“Ah, o cara é louco. Não matou porque era índio. Mataria qualquer um”, diz um leitor em mensagem fechada, tentando me fazer crer que foi uma fatalidade. Mas a questão é: Marcondes era um índio. E estava na rua àquela hora porque teve de sair de sua aldeia para trabalhar. Porque a vida de sua gente e de sua cultura não pode se fazer no espaço parco que lhe foi dado. Tivesse terra, tivesse condição de viver como um Xokleng, não precisaria migrar para o litoral buscando conseguir uns trocados. 

O mesmo se pode dizer dos jovens negros que tombam todos os dias nas favelas, nas periferias. Não estão ali por maus. Estão porque há uma sociedade que lhes tirou tudo. Que trouxe seus antepassados à força, que os escravizou,  que lhes deu “liberdade” mas não garantiu terra, lhes jogou no limbo. Agora, seguem matando porque são “frutas podres” do sistema. Os matam por medo, porque sabem que eles estão lutando para garantir sua vida bonita, como todo ser humano quer. 

Nessa semana os indígenas de Santa Catarina se juntaram em Penha para celebrar a vida de Marcondes, para cantar suas rezas, para incensar sua alma imortal. Guarani, Kaingang e Xokleng enfrentaram a chuva e foram fincar uma lança bem no lugar onde Marcondes caiu, atingido por Gilmar, possivelmente outro pária desse mundo erguido sobre a violência do capital. 

Nada trará Marcondes de volta. Mas era preciso marcar o chão. Para que ninguém esqueça que ali foi assassinado mais um filho dessa terra. Morto por nada. Caído por ser quem é. Um índio, desgarrado de sua gente, na dura missão de sobreviver. 

Mas, se para o homem que matou o Xokleng,  Marcondes era nada, para sua comunidade ele sempre foi exemplo. Um professor dedicado, um pesquisador disciplinado, um cuidador de sua gente. Por isso os anciãos fizeram o sacrifício de sair de suas casas, e as gentes de todas as aldeias vieram para o litoral cantar seus cantos e honrar a memória. 

Nos anos 60 do século passado até mesmos os estudiosos mais engajados na luta indígena vaticinavam que esse mundo estava acabado. Premidos pela sociedade não-índia, racista e violenta, as populações diminuíam, e iam desaparecendo. A “integração” era o que lhes restava, ou seja, sumirem nas periferias das cidades, engrossando o exército de miseráveis e famintos. Mas, nada disso se cumpriu. Os povos originários resistiram e cresceram. De 168 mil que eram em 1968, passaram a quase um milhão nesse 2018. 

Estão aí, estão vivos e seguem em luta. Retomam terras, insistem na preservação de sua cultura. Não estão cristalizados no tempo. Tiveram mais de 500 anos de contato. Suas vidas estão marcadas pela ação dos não-índios, mas muita coisa ainda permanece intocada. É uma batalha cotidiana pelo direito de ser. Marcondes era um desses lutadores, na luta pela preservação da língua Xogleng. 

Aos não-índios se apresentam dois caminhos: ou seguem o massacre, aceitando como normal que alguém morra porque é índio e que os originários vivam sem terra por aí, perdidos de todos os seus direitos, ou começam a compreender o que foi que aconteceu nesse espaço, a invasão, o roubo, o genocídio, a destruição e passa a defender o direito daqueles que sobreviveram ao massacre de ter o seu território e a sua cultura.    

Os originários ocuparão pouco menos de 15% do território nacional caso suas terras sejam reconhecidas. Isso é praticamente nada no universo dos mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Eles têm esse direito. Por isso a luta segue. 

Marcondes não está mais. Mas, no seu caminho segue uma fileira de outros Xoklengs. E enquanto houver uma única alma Xokleng, ela resistirá. E assim se dará, com todos os demais povos originários que seguem lutando. Há vida, há luta.  

 

 

 

  • Capa/Fotos: Cimi SC

Fonte: Elaine Tavares, IELA

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