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A corrupção é o principal problema do Brasil?

E se caísse um raio em Brasília e acabasse com todos os “corruptos”, amanhã teríamos um Brasil melhor? E se todo o dinheiro desviado em esquemas de corrupção fosse devolvido aos cofres públicos, teríamos educação e saúde pública de qualidade amanhã? 

O Brasil teria desviado, em 2015, 69 bilhões de reais dos cofres públicos em esquemas de corrupção, segundo uma pesquisa da FIESP. Problema sete vezes maior do que a corrupção é a sonegação de impostos. Só em 2015 o Brasil deixou de arrecadar R$ 500 bilhões por sonegação de impostos. Mas a mesma mídia que sonega impostos é aquela que te diz que o problema é apenas a corrupção. 

Vamos comparar com outros números. O total que o governo federal gastou em 2016 em juros e amortizações da dívida pública brasileira foi de 407 bilhões, ou seja, pouco menos do que o governo gastou no mesmo ano com a Previdência Social – 550 bi- e que ao contrário dos minoritários detentores de títulos da dívida pública, abrange milhões de brasileiros.

E porque o governo quer mexer na previdência e não nos juros da dívida? Parece uma pergunta óbvia. No entanto o seu silenciamento dos noticiários cotidianos diz muito sobre as prioridades políticas e econômicas dos donos do poder. Também em 2016 o governo gastou 84 bilhões de reais com o judiciário brasileiro, incluindo aí  os super salários dos juízes que julgam, por exemplo, a corrupção. Ou seja, 15 bilhões a mais do que o desviado com corrupção no ano anterior. 

Falta verba para saúde, educação e creche porque parcelas dos políticos brasileiros aprovaram uma Emenda Constitucional do “Teto dos Gastos”, por exemplo, que em 2025 terá cortado 45 milhões só na educação! Ou seja, falta dinheiro porque há uma política econômica que é aprovada por políticos que diz onde deve “faltar” recursos. 

Sim, a corrupção é um problema “estrutural” brasileiro, ou seja, está nas nossas raízes históricas. Herdamos de Portugal as mazelas da colonização exploratória e também um modelo de Estado, que chamamos de patrimonialista, que, em síntese, quer dizer um Estado que diferencia muito pouco o que é público do que é privado. Essa é a origem da corrupção no país, que é agravada por diversos fatores, entre eles o financiamento privado de campanhas políticas. 

“Não vou votar em ninguém nessas eleições, todos são corruptos”, ouve-se por aí. E se chegar um candidato que você tem certeza que não é corrompível, será suficiente para que ele ganhe seu voto?

Você não vai querer saber qual a política econômica e social desse candidato para ampliar gastos com saúde e educação e diminuir com as despesas financeiras? Você não vai querer saber o que esse candidato fará com relação a entrega das nossas riquezas naturais para os capitalistas internacionais? Pouco importa pra você se a política de valorização do salário mínimo acabou? E finalmente, você não vai querer saber qual a proposta desse candidato para reduzir as desigualdades sociais que é o principal problema do Brasil? 

Essas perguntas desaparecem sob o discurso de que só importa combater a corrupção, esvaziando a política e abrindo espaços para os supostos “técnicos” e “bons gestores”, que no fundo se aproveitam da tua ojeriza à política para fazer política apenas para a classe social deles – que certamente não é a sua.

Respondendo às perguntas feitas no primeiro parágrafo.  O Brasil pode até ficar livre da corrupção. Mas o problema vai persistir. O que precisa mudar é a política econômica, que faz com que o dinheiro público seja usado para favorecer apenas as elites, e não o povo brasileiro. Abra os olhos!

 

Por Juliane Furno, doutoranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp e militante do Levante Popular da Juventude.

 

  • Edição: Daniela Stefano

Fonte: Brasil de Fato

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