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Crise do capitalismo revela importância da classe trabalhadora, diz historiador

Em entrevista ao Brasil de Fato, indiano Vijay Prashad explica crise do capital e nova geopolítica mundial

 

A pandemia de covid-19 tem sido devastadora em termos sanitários, mas também tem graves consequências econômicas. A desindustrialização em centros importantes e, principalmente, o aumento do desemprego deixando milhões em situação de extrema pobreza, poderão ter efeitos devastadores e provocar alterações significativas no panorama da economia mundial.

E a China, local onde foram diagnosticados os primeiros casos do novo coronavírus – e um dos países mais efetivos em seu controle – poderá assumir o papel de protagonista no cenário global, interrompendo a hegemonia dos Estados Unidos. 

O historiador indiano Vijay Prashad, entrevistado dessa semana no programa BDF Entrevista, veiculado todas às sextas-feiras, na Rede TVT, acredita que as tentativas estadunidenses de “mudar a cadeia de fornecimento global, para que o mundo dependa menos da China” por meio de uma intensa guerra comercial, deverão falhar. 

“Ao longo dos últimos 15 ou 20 anos, a China criou relações muito importantes com a América Latina, a África, com a maior parte da Ásia. Então vai ser difícil isolar a China. A China é uma enorme economia mundial, desempenha um papel fundamental na reprodução das vidas das pessoas por todo o mundo”, explica.

As ausências em postos de trabalho por conta da quarentena, que atingiu boa parte da população economicamente ativa pelo mundo, é classificada por Prashad como uma “greve geral obrigatória”. “É a primeira vez que tanta gente é removida do trabalho em um sistema capitalista”, aponta. Somente no Brasil, até maio deste ano, mais de 7,8 milhões de pessoas ficaram sem emprego, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Suas consequências, afirma o historiador, revelaram a importância da classe trabalhadora na engenharia capitalista. “Esse sistema entrou em colapso, o que prova que o sistema capitalista depende da força de trabalho, e não apenas do capital. O instante em que você retira o trabalhador dessa equação, o sistema entra em colapso”. 

O historiador também aponta como o mercado financeiro tem estimulado ditaduras, mundo à fora. Neste século, avisa Prashad, “não são mais necessários tanques de guerra”. “Nós já temos ditaduras do século 21. Para se dar um golpe no século 21 você não precisa de tanques de guerra, você só precisa de bancos. Porque existe um tipo de ditadura do mercado financeiro. Se um país não se comportar direito, ele será punido pelos credores. O FMI vai vir e puni-lo. Essas pressões do mercado financeiro são suficientes para colocar um país na linha. E nós já assistimos isso várias vezes”.

Confira alguns trechos da entrevista:

Brasil de Fato: A pandemia pode colocar a China em uma importante posição no cenário mundial. O que essa nova organização geopolítica pode causar?

Vijay Prashad: Estamos em um momento muito perigoso. Os EUA, que tem se aproveitado de décadas de poder ilimitado, está descobrindo que os chineses não desenvolveram poderio militar, não vamos confundir as coisas, e não só poder econômico, mas eles na verdade desenvolveram poder científico e tecnológico. Em outras palavras, quando se olha para o 5G, a habilidade dos chineses de desenvolverem internet rápida acima de qualquer coisa, talvez energia por hidrogênio, ou coisas do tipo, novas gerações de energia, essa é uma grande ameaça aos EUA a longo prazo. Então eles estão tentando impedir a China de fazer grandes descobertas, e terem poder científico e tecnológico. 

Políticas anti-China e declarações de guerra têm sido feitas desde muito antes da covid-19, mesmo na guerra comercial que Donald Trump lançou contra a China, usa-se muito uma linguagem militar. Os EUA desenvolveram algo chamado de parceria do Indo-pacífico, com a Austrália, Japão e a Índia, em uma tentativa de cercar a China. Isso veio antes do coronavírus. Essa tentativa de conter a China dentro de suas fronteiras, de colocar a China no seu devido lugar. 

Combinando isso com algumas das ações recentes que os EUA desenvolveram, em particular o míssil de cruzeiro hipersônico, que dentro de uma hora pode ser lançados dos EUA, e em uma hora pode devastar uma cidade inteira em qualquer lugar, que é cinco vezes mais rápido que outros mísseis, existe também essa ansiedade crescente nos EUA de perda do poder científico e tecnológico, existe um aumento de uma retórica contra a China através da guerra comercial e agora da covid-19. Ligando a esses novos sistemas de ataque para os quais não se tem uma defesa, estamos em uma situação bem perigosa. 

Nós vemos níveis alarmantes de desemprego em todo o planeta, apesar de alguns países já terem iniciado uma pequena recuperação. Essa é uma crise da diferente daquela que aconteceu em 2008, não?

Em 2020, não se tem um problema de liquidez, os bancos na verdade estão com muito dinheiro. O problema que se tem é um problema de empregabilidade. Imagine um grande lockdown, imagine algo em torno de 2,7 bilhões de pessoas desempregadas abruptamente nesse lockdown, esse é um número enorme, é praticamente metade da força de trabalho mundial de repente sem uma ocupação, sem formas de ganhar o seu sustento. 

A maior parte das pessoas não têm economias o suficiente para sobreviverem por mais do que uma semana a dez dias, não muito mais do que isso. Se elas tiverem que pagar aluguel, elas estão perdidas. Não se tem esse tipo de dinheiro guardado, digo, a maioria da população. Então se você decreta um lockdown de duas semanas, você basicamente está condenando a maior parte das população mundial a morrer de fome. 

É interessante, porque essa foi uma espécie de greve geral obrigatória, porque é a primeira vez que tanta gente é removida do trabalho em um sistema capitalista, e esse sistema entrou em colapso, o que prova que o sistema capitalista depende da força de trabalho, e não apenas no capital, ou em ideias. É o trabalho que atribui valor a ele. O instante em que você retira o trabalhador dessa equação, o sistema entra em colapso. Então como solucionar o problema? Como salvar o sistema? Dinheiro deveria ter sido angariado imediatamente para ajudar a população, porque é uma crise de empregabilidade. 

O principal objetivo do dinheiro agora deveria ser alimentar as pessoas, dar condições para que as pessoas sobrevivam durante o lockdown. Não dar dinheiro aos bancos e empresas, porque eles já estão montados em dinheiro. Se não for em contas legais, em contas ilícitas no exterior. Eles não precisam de mais dinheiro. Se você der mais dinheiro para as companhias, elas não vão contratar mais pessoas, porque pelo menos durante duas semanas ou um mês, ninguém poderá ser contratado no lockdown. 

Então ao invés de lidar com a crise da pandemia, que não é uma crise de liquidez, é uma crise de empregabilidade, ao invés de lidar com ela pelo que ela é, eles usam a mesma fórmula de dez anos atrás e, como de costume, simplesmente dão mais dinheiro aos ricos. Isso é simplesmente ridículo. 

O senhor acredita que, ao contrário do que desenhava, com iniciativas neoliberais e um enxugamento do estado, essa crise mostrou a importância de políticas públicas?

Quando você compara os EUA, um dos países mais ricos do mundo em renda per capita, e o Vietnã, um dos países mais pobres do mundo, a comparação é surpreendente. No Vietnã, que tem uma fronteira de mais ou menos mil km com a China, não houve nenhuma morte, ninguém morreu de covid-19. 

O motivo para ninguém ter morrido é que, apesar de todos os problemas do Vietnã, eles mantiveram um sistema público de saúde. Eles têm um governo que acredita na ciência. E por todas essas razões, quando a covid-19, quando todas as histórias da China surgiram em janeiro de 2020, o governo do Vietnã entrou em ação. E os órgãos de saúde pública começaram a monitorar a saúde das pessoas, começaram a checar a temperatura das pessoas, e assim por diante. 

Um país como a Índia, como o Brasil, EUA, Itália e o Reino Unido, em todos esses países capitalistas, nos últimos dez anos, pelo menos, se não mais, os governos estão destruindo os sistemas públicos de saúde, não estão pagando o suficiente para médicos e enfermeiros, estão acabando com os sindicatos, estão essencialmente promovendo a privatização da medicina. 

A saúde e a medicina jamais deveriam existir pelo lucro. Saúde e medicina são serviços sociais essenciais, eles devem continuar no setor social. Jamais para o lucro em qualquer sistema. Nunca em um sistema socialista, obviamente, mas também não em um sistema capitalista, porque é cruel fazer dinheiro em cima da saúde dos outros. 

Então se você destrói a sua infraestrutura de saúde, se tem um governo que não acredita na Ciência, o senhor Bolsonaro não parece acreditar na Ciência, o senhor Narendra Modi não parece acreditar na Ciência, o senhor Donald Trump não parece acreditar na ciência. Você não acredita na ciência por um lado, e não tem um sistema público de saúde, então você vai ter uma catástrofe quando uma pandemia surgir. E é isso que aconteceu.

O senhor citou Bolsonaro e Modi, dois presidentes com aspirações autoritárias e conservadoras. Acredita que esse autoritarismo pode se intensificar nesse próximo período?

Nós já temos ditaduras do século 21. Existem dois tipos de ditadores neste século. O primeiro é que para se dar um golpe no século 21, você não precisa de tanques de guerra, você só precisa de bancos. Porque existe um tipo de ditadura do mercado financeiro. Se um país não se comportar direito, ele será punido pelos credores. O FMI vai vir e puni-lo. Essas pressões do mercado financeiro são suficientes para colocar um país na linha. E nós já assistimos isso várias vezes. 

Governos democraticamente eleitos tem que basicamente se ajoelhar e rezar para os banqueiros. Isso aconteceu com a Grécia. A Grécia estava passando por uma crise econômica. Uma série de governos vieram, eles disseram “nós temos uma alternativa, não queremos austeridade”, e os banqueiros disseram: “vocês vão trazer austeridade”. E eles se ajoelharam e disseram: “vamos fazer austeridade”. Esse foi um golpe de estado. Isso foi simplesmente um golpe de estado. 

Mas não foi como um golpe de estados dos séculos 19 e 20. Você não precisa colocar tanques nas ruas. Os banqueiros dizem “faça isso ou vamos acabar com o país”. Isso é um golpe de estado. Isso é uma ditadura do mercado financeiro. Esse é um tipo. O segundo tipo de ditadura que nós temos hoje, que nós já temos, é o que eu quero dizer, é a ditadura que mantém a democracia. Por exemplo, o que aconteceu em Honduras, ou na Bolívia, foi um golpe de estado em nome da democracia. Evo Morales foi destituído por um golpe de estado.

Os militares vieram e disseram: “você tem que renunciar”, a mídia, especialmente no Ocidente, e não somente no Ocidente, na América Latina, a mídia estava dizendo: “não, não se trata de um golpe de estado. Era Morales que era antidemocrático. O golpe foi democrático”. A mesma coisa aconteceu em Honduras em 2009, “Zelaya era antidemocrático, o golpe era pela democracia”. Eles estão usando instrumentos de ditaduras cercados por uma linguagem democrática. O impeachment de Dilma da presidência do Brasil foi um tipo de golpe de estado, geralmente chamado de “lawfare”. Então você mantém as aparências de uma democracia, mas você essencialmente institui governos ditatoriais.


  • Capa: Historiador indiano é o entrevistado desta semana no BDF Entrevista, que vai ao ar na Rede TVT – José Eduardo Bernardes/ Brasil de Fato
  • Edição: Leandro Melito

Fonte: José Eduardo Bernardes, Brasil de Fato

 

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