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Desde outubro, pelo menos dez incêndios atingiram territórios indígenas

Dois deles ocorreram desde o fim de semana; alguns são apontados por líderes comunitários como criminosos; em Sobradinho, no DF, pela segunda vez em um mês, encapuzados atearam fogo em acampamento de sem-terra

 

Em apenas nove meses, diversos povos indígenas, de regiões variadas do Brasil, foram duramente atingidos por pelo menos dez incêndios, conforme levantamento feito pelo De Olho nos Ruralistas. Alguns deles, pela forma com que iniciam – quase sempre na madrugada -, pela demora nas apurações e pela falta de conclusão nas investigações – deixam à mostra sinais de serem fruto de ações criminosas.

Os dois mais recentes ocorreram no intervalo de um dia. No fim de semana (06 e 07), o fogo tomou conta da aldeia Naô Xohã, da etnia Pataxó Hã-hã-Hãe, no município de São Joaquim de Bicas, na região de Brumadinho, Minas Gerais. Na madrugada da segunda-feira, dia 8, foi a vez da Casa da Reza dos Guarani-Kaiowá – um dos símbolos mais importantes da cultura desse povo – ser consumida pelas chamas em Dourados, Mato Grosso do Sul.

Uma série de indícios aponta que a origem do fogo em Minas é criminosa, segundo os Pataxó. A aldeia atingida está localizada na fazenda que pertence à MMX, empresa de Eike Batista. Ãngohó, líder da comunidade, disse que uma garrafa plástica, com cheiro de combustível, foi encontrada horas após o fogo ter sido controlado pelos bombeiros.

É sabido que ali os indígenas, vítimas em janeiro do crime ambiental da Vale, sofrem constantes ameaças de fazendeiros e empresários do agronegócio da região. Arariba, filha do cacique Hayo, contou que um grupo de homens retirava madeira da reserva na tarde de sábado quando foi flagrado por jovens indígenas. Os invasores estavam armados e disseram que voltariam à noite. Antes do incêndio, na madrugada do domingo, alguns indígenas relatam terem visto cinco homens com os rostos cobertos por capuz na aldeia dando tiros para o alto.

A Casa da Reza, feita de madeira e coberta por capim sapé, estava localizada na aldeia Jaguapiru, em Dourados. Chamado de Gwyra Nhe’engatu Amba, o espaço estava sob a responsabilidade de dois anciãos e líderes religiosos tradicionais, o cacique Getúlio Juca e Alda Silva. Referência nas comunidades indígenas, a casa é o local onde ocorrem cultos, curas e os povos transmitem seus conhecimentos. Essa abrigava também eventos, como o Encontro Nacional de Estudantes Indígenas.

Com cerca de 17 mil moradores, a reserva de Dourados dos Guarani Kaiowá é a mais populosa do país. A destruição da casa, segundo os indígenas, terá consequências nas colheitas, no armazenamento de alimentos e na saúde dos moradores da aldeia.

POVO PANKARARU SOFREU TRÊS ATAQUES DESDE AS ELEIÇÕES

Os dois incêndios recentes envolvendo indígenas chamam atenção porque, além de terem o fogo como elemento comum, atingiram povos indígenas que são permanentemente ameaçados por atividades relacionadas ao agronegócio e à mineração. Longe de serem fatos isolados, têm ocorrido com constância desde outubro.

Em Pernambuco, logo após a eleição do presidente Jair Bolsonaro – inimigo declarado dos povos indígenas – os Pankararu, que lutam contra posseiros por suas terras, sofreram três ataques incendiários. Mais uma vez, durante a noite. A primeira vez foi no dia 29 de outubro, quando foram incendiados uma escola e um posto de saúde da família, localizados na aldeia Bem Querer de Baixo, no município de Jatobá. No dia 8 de novembro, um novo ataque na comunidade: o fogo destruiu uma igreja. E, em 29 de dezembro, mais uma ocorrência – nesta o fogo consumiu outra escola da aldeia.

No fim do ano, na Comunidade São Francisco, no Baixo Rio Envira, município de Feijó, no Acre, a casa do líder indígena Rui Nunes Kaxinawá foi destruída por um incêndio. Ele e sua família pertencem à etnia Huni Kuin e, quando o incêndio ocorreu, estavam em um seminário indígena organizado por Rui.

Este ano, no dia 8 de fevereiro, mais uma Casa de Reza foi destruída pelo fogo. Os atingidos foram os indígenas Tarumã Mirin, do povo Guarani Mbya, em Araquari, região norte de Santa Catarina. Dias antes do episódio, moradores contam terem visto três drones sobrevoando a comunidade. O caso deixa poucas dúvidas sobre o fato de ser um crime: um indígena foi feito refém por três homens, no fim da tarde do dia 8, e levado à Casa de Reza, que, em seguida, foi incendiada.

Em março, os pataxós sofreram com incêndio no Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal,  na região do município de Porto Seguro, litoral sul da Bahia. No mês de abril, os guaranis que habitam a região do Pico do Jaraguá, na capital paulista, também foram amedrontados pelo fogo. Em junho, esse mesmo povo foi alvo de incêndio não esclarecido na Reserva Indígena do Rio Silveiras, em São Sebastião, litoral norte de São Paulo.

ACAMPAMENTO É INCENDIADO NO DF

Assim como os indígenas, os sem-terra têm sido vítimas de violência com mais intensidade depois da eleição do presidente Jair Bolsonaro, em outubro. Na manhã desta terça, um grupo de aproximadamente dez pessoas, a maioria encapuzada, ateou fogo nos barracos do Acampamento Monte Orebe, localizado no Núcleo Rural Lago Oeste, região administrativa de Sobradinho II, no Distrito Federal.

Os acampados contam que os agressores portavam armas e gasolina. Essa é a segunda ocorrência com essas características, em menos de um mês, na mesma região.

 

  • Capa: Incêndio em reserva Pataxó, em Minas, Mídia Ninja

Fonte: Maria Lígia Pagenotto, De Olho nos Ruralistas/Racismo Ambiental

 

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