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Dez dias após incêndio, Museu Nacional ainda espera verba para completar perícia e iniciar buscas

Instituição precisa primeiro reforçar estrutura do palácio imperial para que a Polícia Federal termine perícia e os pesquisadores possam começar a procura por itens

 

Dez dias depois do incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e às vésperas da chegada de uma equipe da Unesco que ajudará a buscar itens do acervo, ainda não se sabe o real alcance da tragédia, nem suas causas concretas. A busca por itens não pode começar, nem os peritos conseguiram terminar seu trabalho. Neste momento, a instituição ainda espera receber, nesta quinta, os 10 milhões de reais emergenciais prometidos pelo Ministério da Educação para reforçar a estrutura do palácio incendiado, de modo que a Polícia Federal complemente a investigação e os pesquisadores possam finalmente começar a procura por itens.

O palácio imperial que queimou na noite de 2 de setembro manteve-se de pé, apesar do enorme incêndio, e poderá ser restaurado. Ainda que seu teto, pisos, decoração e estrutura interna tenham sidos destruídos. Sua imensa carcaça hoje abriga apenas escombros e, espera-se, uma pequena parte de um acervo de 20 milhões de itens.

Um inquérito policial foi instaurado na semana passada, poucas horas depois do incêndio, e ninguém, com exceção de policias federais e bombeiros, está autorizado a entrar no prédio, localizado no parque municipal Quinta da Boa Vista. A comoção inicial diante do museu —manifestações estudantis, lágrimas e abraços de funcionários e pesquisadores que viram toda uma vida dedicada à instituição queimar junto, um vaivém constante de jornalistas— deu lugar,  nos últimos dias, a um ambiente vazio e silencioso, quase desértico, no qual só circulam alguns poucos funcionários da instituição e autoridades policiais.

Tapumes já começaram a ser instalados em volta do palácio imperial de modo a prepará-lo para o início de algumas obras estruturais. O objetivo é garantir a sustentação de paredes, pisos e lajes, além de uma cobertura que proteja o que restou da chuva. Só então, explica o museu, a Polícia Federal poderá terminar sua perícia. Até o momento, a investigação entrou no local com o auxilio da Defesa Civil em alguns setores, mas evitou outros por conta do risco de desabamentos internos. Só após o final da perícia é que arqueólogos, técnicos e funcionários do museu vão poder entrar no palácio, sob a supervisão da arqueóloga Cláudia Carvalho, para buscar os itens que podem ter resistido ao incêndio.

A instituição afirma que dará prioridade a seus próprios funcionários nessas buscas, mas que técnicos e especialistas de outros lugares farão parte de uma equipe enviada pela Unesco, que deve desembarcar nesta quinta no Rio. Esses profissionais já começam a receber um treinamento específico e um planejamento será traçado, com o objetivo de mapear os locais onde podem estar determinados itens do acervo e direcionar as buscas dos especialistas, segundo explicou o Museu Nacional.

Tudo isso só poderá ser feito, contudo, após a liberação dos 10 milhões de reais iniciais prometidos pelo Ministério da Educação e a contratação de uma empresa que fará as obras. A expectativa é que o dinheiro já esteja disponível nesta quinta-feira, segundo a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), proprietária e responsável pela manutenção do museu. A instituição entregou na segunda-feira, no prazo prometido, um termo de referência que detalha como o trabalho deverá ser feito, assim como os critérios de segurança, e analisou os preços de pelo menos três firmas especializadas nesse tipo de intervenção. A contratação deverá ser feita de forma urgente e sem passar por licitação.

O que foi e o que ficou

No segunda-feira do dia 3 de setembro, horas depois de o incêndio ser controlado, alguns funcionários do museu entraram no primeiro andar para resgatar alguns minerais raros da coleção Werner, trazida pela família real ao Brasil, além de um quadro do Marechal Rondon. Também estão à salvo os meteoritos, capazes de resistir a altíssimas temperaturas. Algumas cerâmicas também foram resgatadas pelos bombeiros, enquanto que moradores dos arredores da Quinta da Boa Vista vêm entregando pedaços de documentos e outros itens que o incêndio espalhou pelo bairro. Falta agora comprovar se os itens encontrados pertencem de fato a instituição.

Nada mais foi encontrado até o momento. Pesquisadores ouvidos pelo EL PAÍS dão como certo a destruição completa de alguns setores. Como a parte de memória e arquivo, composta principalmente por documentos de papel da era imperial; as múmias egípcias e outros artefatos do Egito Antigo; o setor de entomologia, que contava com exemplares únicos de insetos extintos; as inúmeras peças de culturas indígenas que não existem mais ou não produzem mais esses itens; ou ainda a parte de linguística, em especial o acervo único de línguas indígenas.

A esperança reside, por exemplo, no departamento de geologia e paleontologia, que não parece não ter sido atingido por completo, segundo comentou Cristiana Serejo, vice-diretora do Museu Nacional. Armários de aço, caixas e cofres especiais —hoje cobertos por entulhos— podem ter conservado parte do acervo. “Vai demorar alguns meses para acessar os fósseis e minerais ali dentro. Se a gente recuperar 25%, vai ser uma alegria total”, chegou a dizer o professor Renato Rodriguez Cabral Ramos. Em um desses recipientes se encontrava o crânio de Luzia, o fóssil humano com mais de 12.000 anos e o mais antigo do Brasil. O problema é que fósseis do tipo são pouco resistentes, sobretudo a uma temperatura tão alta e durante tanto tempo —o fogo começou por volta de 19h30 de domingo e durou até cerca de 3h da madrugada.

Fora do palácio imperial, uma pequena parte de um acervo de 20 milhões de itens, acumulados ao longo de 200 anos pelo principal centro de pesquisas da América Latina, permanece intacto. Isso porque a instituição possui o Horto Botânico, uma área de 40.000 metros quadrados dentro da própria Quinta da Boa Vista onde se encontram um herbário com 550.000 amostras de plantas, o setor de animais vertebrados com 460.000 lotes e uma biblioteca central com 500.000 títulos —e 1.560 obras raras. Além disso, um anexo subterrâneo que abriga 100.000 lotes de animais invertebrados, principalmente um acervo de fauna marinha, não foi atingido pelo incêndio. Trata-se de 1,6 milhão de itens que o Museu Nacional já contam para a sua reconstrução.

Enquanto isso não acontece, os pesquisadores e funcionários da instituição, assim como mestrandos e doutorandos, se espalham pelo Horto Botânico para, de alguma forma, continuar com suas pesquisas e trabalhos. Permanecem mobilizados à espera do início das buscas.

Verba para a reconstrução

Além dos 10 milhões de reais prometidos para chegar nesta quinta, o Governo Federal também prometeu na semana passada outros cinco milhões para um projeto executivo que, segundo o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, deverá ser executado até o início de 2020. Só então a reconstrução de fato começará. O BNDES também prometeu manter um financiamento de 21,7 milhões, aprovado anos antes da tragédia com o objetivo de reformar a estrutura do museu — o banco público de desenvolvimento ainda prometeu um edital de 25 milhões para projetos de segurança e prevenção contra incêndios de museus. Sá Leitão ainda disse que vai “colocar a Lei Rouanet à disposição” para que a instituição possa conseguir recursos com a iniciativa privada. Por fim, a Alemanha prometeu enviar de forma imediata um milhão de euros (4,8 milhões de reais) para ajudar na reconstrução do museu, além de integrar junto com a França a equipe de especialistas da UNESCO para ajudar na recuperação de itens que possam ter resistido ao incêndio.

Na noite da última segunda-feira, o presidente Michel Temer assinou uma Medida Provisória (MP) que cria a Agência Brasileira de Museus (Abram), um serviço social autônomo aos moldes do Sebrae vinculado ao Ministério da Cultura e responsável pela reconstrução da instituição. O novo órgão também vai gerir os outros 27 museus federais que hoje estão sob o guarda-chuva do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), uma autarquia que será extinta, com o objetivo de que mais recursos, não públicos como também privados, sejam canalizadas para as instituições. “Importante destacar que o Museu Nacional continua sendo parte da estrutura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A Abram será responsável pelas ações de reconstrução do Museu Nacional do Rio de Janeiro, devendo, para tanto, constituir um Fundo Patrimonial para arrecadar, gerir e destinar doações de pessoas físicas e jurídicas privadas voltadas à sua reconstrução e modernização”, disse em nota o ministério da Casa Civil, que prevê ainda um orçamento inicial de 200 milhões de reais para a nova entidade. O presidente também editou uma MP que permite criar fundos com doações privadas direcionadas para projetos de interesse público.

Museólogos e especialistas garantem que a Abram será, na verdade, gestora de Organizações Sociais. E que sua criação será o primeiro passo para que instituições e acervos públicos sejam cedidos para o setor privado, que ficaria então responsável por geri-los. Ao mesmo tempo, argumentam que a extinção do Ibram significará o fim de políticas públicas, ações educacionais e editais públicos não só nos 27 museus sob a guarda do Ibram, mas em milhares espalhados pelo país. A MP ainda precisa passar pelo Congresso, mas não sem resistência de alguns profissionais da área e servidores do Ibram, que repudiaram a MP.

 

  • Capa: O meteorito de Bendegó, em meio aos escombros do Museu Nacional/Foto: Leo Correa AP

Fonte: Felipe Betim, El País

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