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Em acampamento improvisado, Kaingang difundem cultura do artesanato

O Terminal desativado do Saco dos Limões, construído em 2003 e em desuso desde 2005, está abrigando 70 famílias do povo Kaingang. O acolhimento improvisado foi uma conquista para os indígenas que ao chegarem tiveram que se instalar sob o elevado do Dias Velho. Mesmo assim a estrutura deixa muito a desejar, os banheiros estão danificados e não tem nem uma lona para proteção da chuva e vento sul, que bate com toda a força no terminal. A prefeitura reluta para não atender às demandas de uma Casa de Passagem, ou como alguns chamam, Casa do Índio, ou seja, um local para albergar indígenas que chegam em Florianópolis para trabalhar principalmente na temporada de verão.

A família de Celita veio de Chapecó no natal para vender seus trabalhos e deve permanecer na cidade até a Páscoa. Celita viajou com suas duas filhas e o marido pela primeira vez para a capital, as vendas estavam fracas no oeste. Os quatro trabalham em conjunto o dia inteiro na produção de balaios, casinhas de passarinho e filtros de sonhos confeccionados com cipó e taquara, desde a coleta da matéria-prima.

Veja algumas fotos e continue lendo a matéria.

Foto: Joana Zanotto

– Desde pequena a gente aprende com nossas mães a trançar e quando cresce já sabe como fazer, conta Celita.

Foto: Joana Zanotto

A filha de Celita, Edna, raspa a taquara e a corta em filetes, para mais tarde serem trançados.

Foto: Joana Zanotto

Os filetes são banhados em água para não quebrarem ao serem entrançados.

Foto: Joana Zanotto

A outra filha de Celita, Cristina, vende os produtos confeccionados por ela e seus parentes.

A família normalmente passa a jornada no centro da cidade e volta à noite para pernoitar no Tisac, onde estão alojadas comunidades Kaingang dos três estados do sul. Neste final de semana, entretanto, as vendas ocorreram no próprio terminal desde a sexta-feira (2/2) em uma grande feira de artesanato organizada pelos grupos. Além da venda de artesanato e medicinas naturais, as visitas foram recebidas com apresentações de danças tradicionais.

Foto: Joana Zanotto

O professor da aldeia Marcos explica que a dança simula uma preparação para a guerra e as conquistas territoriais. Os guerreiros testam se o corpo está preparado para a guerra.

Foto: Joana Zanotto

Foto: Joana Zanotto

Feito os balaios trançados pelas mãos das índias/os, a cultura se entrelaça nas relações em constante movimento. As danças apresentadas em língua nativa e português refletem esse encontro passado e presente. Na música tradicional, a encenação simula uma luta corporal entre guerreiros da comunidade em preparação para a guerra e as conquistas territoriais. Já a canção em português faz referência a Deus e à solidariedade no trabalho coletivo. O pedagogo kaingang Marcos Kanhrú, que ajudou a organizar as danças, fala sobre a relação do povo com o divino. Segundo ele, antes mesmo do acesso às religiões, a fé nas divindades, natureza, Deus, sempre foi bem cultuada entre eles.

Foto: Joana Zanotto

Tereza Loureiro e a filha Maria Lopes vendem pau amargo e cipó recomendados para dores na barriga, falta de apetite, entre outras complicações.

Enquanto mãe e filha, habituadas desde crianças aos chás, vendem medicinas tradicionais usadas costumeiramente para tratamento de dores na barriga, o jovem Ademir Brandino vê-las com admiração. Ele almeja um dia ser pajé. O pedagogo entrevistou seis anciãs e anciões para o seu Trabalho de Conclusão de Curso. Com a intenção de revitalizar a sua cultura, ele estudou sobre as ervas medicinais com velhos centenários, a xamã Maria tem 106 anos. Assim ele trabalha na transmissão da cultura dos Kaingang de Votouro, aldeia localizada em Benjamin Contant do Sul, uma cidadezinha no norte do Rio Grande do Sul, perto de Chapecó.

Foto: Joana Zanotto

Ademir Brandino conta que pediu autorização para a pajé Maria para vir a Florianópolis e trazer as crianças da comunidade. De acordo com o senso de 2010, em Votouro vivem 956 Kaingang.

Os três dias de feira ajudaram a divulgar a cultura deste que é um dos povos resistentes na região sul. Segundo Sadraque Lopes, quando trabalham no centro ou nas praias não é possível usarem o cocar ou mostrar as danças. O local permitiu a divulgação. “A gente tem um modo de vida que não nos permite caçar mais. Hoje a nossa caça é a venda de artesanato, depois a gente partilha com o resto da comunidade o dinheiro.”

Apesar de Sadraque considerar bom o espaço no terminal em comparação ao viaduto, sem qualquer estrutura ou segurança, relata as dificuldades no processo, “tivemos que fazer muita pressão”. Dos três meses em que está em Florianópolis, mais de um passou debaixo do viaduto. “Procuramos nossos direitos antes de vir para cá. A violência que sofremos vem dos próprios órgãos públicos .” Faz um pouco mais de uma semana que o terminal foi conectado a água e energia elétrica, e alguns dos ítens essenciais foram adquiridos apenas a partir de doações.

Segundo o vereador Lino Peres (PT) a situação dos indígenas em Florianópolis neste ano está pior que no final de 2016 e início de 2017. “Na outra vez, conseguiram da prefeitura passagens de ônibus para se locomoverem do centro ao Saco dos Limões.  Neste ano nem isso. A prefeitura diz que dá mão de obra para arrumar as instalações mas não material. O terminal não tem proteção de tapume para  vento.” O mandato do legislador está preparando um dossiê com informações colhidas durante a feira sobre a situação dos Kaingang, que deve ser entregue nesta terça (6) à Procuradora da República Analúcia Hartmann.

A assessoria de comunicação da Assistência Social de Florianópolis declarou à reportagem que as demandas em relação ao acolhimento de indígenas na capital dependem dos outros órgãos envolvidos, Governo do Estado, União e Funai. E que não há ainda nenhuma decisão quanto à Casa de Passagem, reivindicada pelas comunidades.

 

  • Reportagem: Joana Zanotto

Fonte:  Maruim

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