a
HomeArtigosFórmula do governo: tirar de 99% da população para enriquecer ainda mais o 1%

Fórmula do governo: tirar de 99% da população para enriquecer ainda mais o 1%

Por José Álvaro de Lima Cardoso, Economista

 

Relatório do Banco Mundial divulgado no dia 04 de abril (Efeitos dos ciclos econômicos nos indicadores sociais da América Latina: quando os sonhos encontram a realidade), mostra que, entre 2014 e 2017, a pobreza aumentou no Brasil, chegando a 21% da população, o que representa 43,5 milhões de pessoas. No período analisado, 7,3 milhões de brasileiros a mais, passaram a viver com US$ 5,50 por dia (cerca de R$ 660,00) por mês. O número de brasileiros que viviam na pobreza em 2014 era de 36,2 milhões, o aumento da pobreza até 2017 foi de mais de 20% no período. O documento do Banco Mundial aponta que as perspectivas de crescimento para a América Latina não apresentam melhorias, porque as três maiores economias da região – Brasil, México e Argentina – ou estão crescendo pouco ou apresentam desempenho negativo. A principal razão do aumento da pobreza é o não crescimento da economia. Nos anos de 2015 e 2016, o PIB tinha apresentado variação negativa de -3,5% e de -3,6%, respectivamente. Em 2017 o crescimento foi de 1,1%. No ano passado a economia brasileira cresceu 1,1%, tendo chegado ao mesmo patamar do PIB que apresentava no primeiro semestre de 2012.

Um dos efeitos de um dos piores desempenhos do PIB da história do Brasil (senão o pior) foi o agravamento da situação no mercado de trabalho.  Desde o golpe em 2016 o mercado de trabalho só se deteriora. Segundo o IBGE, a taxa de desocupação ficou em 12,4% no último trimestre (até fevereiro), enquanto era de 11,6% no trimestre anterior. Isso representa 13,1 milhões de brasileiros desempregados, ante 12,2 milhões de desempregados no trimestre anterior, um crescimento assustador em tão pouco tempo.

A taxa de subutilização (trabalhadores desocupados + os que trabalham menos de 40 horas semanais + os que estão disponíveis para trabalhar, mas não conseguem procurar emprego por diversos motivos), chegou a 24,6%. Esta taxa é a mais alta da série histórica, que é calculada pelo IBGE desde 2012. Isto significa que 27,9 milhões de brasileiros se encontram na situação de subutilização de suas capacidades. Este dado não é brincadeira: foi constatado um crescimento de mais de 901 mil pessoas nessa situação em relação ao trimestre anterior. Como já se previa, o número de trabalhadores sem carteira assinada caiu -4,8% no trimestre encerrado em fevereiro em comparação com o anterior.

Os indicadores recentes da Argentina apontam também os danos causados por políticas neoliberais. Segundo dados do Indec, que é considerado o IBGE argentino, a pobreza cresceu quase 6 pontos percentuais em um ano de governo Macri na Argentina. Atualmente 32% da população está abaixo da linha de pobreza, e 6,7% são considerados indigentes. Com o aumento da pobreza, elevou-se também a desigualdade no país. Os 10% das famílias mais ricas recebem 20 vezes mais que os 10% mais pobres. Hoje a aposentadoria mínima no país, de 10.400 pesos (R$ 918,00) é o  rendimento de 8 milhões de idosos no país. Isso num cenário onde a inflação acumulou 47,6% no ano passado.

Representantes  do  capital,  mais  antenados  com  as  “coisas  do  mundo  real”, percebendo a magnitude da crise, têm alertado para o problema do aumento da desigualdade no mundo. Recentemente, em reunião do G7, o ministro das Finanças da França, Bruno Le Maire, afirmou que o capitalismo pode entrar em colapso se a desigualdade  global  continuar  aumentando.  Le  Maire  sugeriu  na  ocasião  que  as potências  econômicas  do  Grupo  dos  Sete  devem  considerar  a  possibilidade  de estabelecer conjuntamente um imposto mínimo para combater o poder de empresas multinacionais gigantes, que dominam a economia mundial. Segundo o ministro “o capitalismo deve se reinventar, ou não sobreviverá ao aumento das desigualdades em todo o mundo (…) Nem sempre podemos pagar por um crescimento maior com desigualdades ainda maiores”. Le Maire, representante de um pais imperialista, afirmou inclusive   que   países   não   deveriam   ser   dominados   por   potências   econômicas estrangeiras. O ministro faz o alerta com conhecimento de causa. Macron iniciou seu governo, atacando com muita sede os direitos sociais da população francesa, conquistados com muita luta pela classe trabalhadora, e a reação está sendo explosiva. No Brasil, onde as condições da classe trabalhadora são muito inferiores, Paulo Guedes tenta implantar, a ferro e fogo, um programa ultra neoliberal, muito mais radical do que o da França.

As políticas de desmonte do estado de bem-estar estão sendo implantadas no mundo todo,  com  maior  ou  menor  reação.  O  pano  de  fundo  é  a  crise  internacional  do capitalismo, que não permite a manutenção de sistemas de seguridade, saúde pública, benefícios, direitos sociais, etc. Tais políticas, que no Brasil tem o agravante de ser conduzida  por  um  governo  totalmente  anti  nacional,  onde  são  implantadas  têm  a rejeição absoluta da população. A razão é muito simples: elas tiram o pouco que tem a esmagadora maioria do povo para aumentar a riqueza de uma minoria de super ricos. É uma política, antes de tudo, de destruição da economia real e de aumento da exploração dos trabalhadores. Resta saber se os brasileiros, que já sentiram os efeitos corrosivos da primeira onda neoliberal no Brasil, no período FHC, irão caminhar passivamente para o matadouro.

Share With:

andrade@sintrafesc.org.br

Sem comentários

Deixe um comentário