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Museus e Tragédias

Por Anderson Loureiro, servidor do IBRAM  filiado ao Sintrafesc

 

Assim que começou a palestra o orador pediu que a plateia apontasse o órgão mais importante do serviço público. Dentre os elencados estavam os hospitais, os fiscalizadores da área tributária e de alimentos, os ligados à segurança e a polícia federal.

Os participantes defendiam as suas indicações,citando a importância daquele órgão e o trabalho nele desenvolvido, até que o ministrante interrompeu a conversa pra entrar no tema da palestra ensinando que não existe órgão público mais importante que outro, pois todos são igualmente importantes dentro do universo das funções públicas que são, justamente, de oferecer serviços públicos à comunidade.

Diante da tragédia com o Museu Nacional é muito sintomático constatar que o Ministério da Cultura, há anos, tem um dos mais baixos orçamentos de todo o Executivo, com uma das mais baixas tabelas salariais e com as mais sofríveis infraestruturas de equipamentos, além de uma solene indigência quando se trata de aperfeiçoamento e treinamento dos seus servidores.

As vinculadas do Ministério, quase todas, vivem constantemente em penúria de toda a ordem, com perspectivas cada vez menores de evolução das suas capacidades de realização e de projetos de desenvolvimento no campo da pesquisa e da proteção do patrimônio artístico e cultural. Isso sem falar na qualidade das instalações, mobiliários e equipamentos que cuidam de entravar cada vez mais a eficiência e eficácia desejadas.

A cada incêndio desses as notas e os discursos voltam com toda a força elevando a Cultura ao patamar de campo estratégico, imprescindível à educação, indispensável para o desenvolvimento de uma nação. Enquanto isso, outros 20 milhões de peças museológicas correm o mesmo risco em todos os demais museus do país.

Enquanto os governos, nos três níveis de instância, continuarem trabalhando com graus de importância dentro do serviço público, vamos ter museus incendiados. Não só museus. Escolas também e os museus-escolas, como é o caso do Museu Nacional. Ali o fogo não destruiu apenasum lugar de visitação, mas sim uma escola, um lugar de produção científica, de pesquisa e de ensino.

Obviamente, e lamentavelmente, a ciência e a histórianão são temas de interesse da maior parte do povo brasileiro. Infelizmente, sublinhe-se. A população, levada à mais cruel das manipulações, que é a interferência no seu poder de discernimento da realidade, acaba por se distanciar destas referências, se brutalizando e se tornando cada vez mais rude.

Há poucos anos, um jornal televisivo de Florianópolis – https://globoplay.globo.com/v/4040353/ – avaliou a necessidade de ser feito um trabalho científico em uma região da cidade, cujo órgão responsável identificou ali a possibilidade de existência de sítios arqueológicos. Com a rudeza do seu olhar, do alto da sua falta de conhecimento, o comentarista destilava em rede estadual a sua indignação com o procedimento científico proposto, inclusive sem saber que ele é previsto em lei, por se tratar desse tipo de patrimônio nacional.

Ao invés de informar, o jornal, através daquele homem, promoveu e dividiu com toda a população a sua própria ignorância, não sendo capaz de compreender o assunto científico tratado naquela matéria.A única dúvida é saber se o caso era só desinformação da emissora ou se o propósito era mesmo a manipulação.

Pois eu afirmo que é assim que se brutaliza uma nação. É dessa forma que se destrói a cada dia um museu com 200 anos de vida. É com argumentos como o que veremos a partir de hoje sobre o incêndio no Museu Nacional que chegaremos à certeza de que a era da boçalidade neste país é bem mais grave e profunda do que supomos.

O conhecimento é um fantasma que assombra os que detêm o poder e,certamente,elesfarão uso de todas as armas para que essa dominação seja eterna.

Inclusive deixando queimar um museu.

Ou todos. Irreparavelmente.

 

  • Capa: AFP

 

Aqui a matéria sobre o resultado do trabalho arqueológicorealizado no Rio Tavares: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/ossada-de-indigena-de-3-mil-anos-e-encontrada-em-florianopolis,f017809613f48a073c9fb39bd36b77b06pnrrr6x.html

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