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Novembrada, um símbolo de resistência civil e democrática

Protesto histórico em Florianópolis completa 39 anos neste 30 de novembro
Esta sexta-feira, 30/11, assinala os 39 anos da Novembrada, que ocorreu também numa sexta-feira. O maior e mais significativo protesto político registrado em Florianópolis entrou para a história do país por ter se transformado num símbolo de resistência e enfrentamento à ditadura militar.

O ano de 1979 pode ser considerado um ano de rupturas importantes. Em maio, milhares de estudantes de todo o país participaram do Congresso de Reconstrução da UNE (União Nacional dos Estudantes), realizado em Salvador. De Santa Catarina, partiu uma delegação eleita pelos centros (diretórios) acadêmicos da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Foi uma viagem longa, atrapalhada pelas forças de repressão inúmeras vezes. Fomos perseguidos, fichados, interrogados, ameaçados, mas chegamos inteiros e dignos à capital baiana.

O sucesso do congresso da UNE foi resultado da disciplina e da organização do movimento estudantil, que ressurgiu em 1977, em São Paulo, e se espalhou pelo Brasil. Manifestações isoladas contra a ditadura civil-militar, pela restauração democrática, pela anistia e pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, foram construindo uma consciência crítica e política fundamental para o país. Na mesma época, ressurgia o movimento sindical com os metalúrgicos do ABC Paulista seguindo a liderança do jovem Luiz Inácio da Silva, o Lula. Estudantes e operários, muitas vezes unidos em atos de protestos, começavam a mudar a história nacional, conquistando espaços e contagiando grande parte da sociedade A luta pela democracia era uma missão cotidiana, mobilizadora e desafiadora.

Outro momento do gigantesco protesto que marcou a história de Florianópolis – James Tavares

 

Portanto a Novembrada não surgiu “do nada”, ela foi o ápice de um movimento que se organizava desde 1977 e que reconstruiu a UNE dois anos após. 0 protesto contra o general presidente João Figueiredo começou a se desenhar nos centros acadêmicos e no DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFSC. Havia representantes de inúmeras tendências (grupos políticos) entre os estudantes. Havia esquerdistas moderados e reformistas (Unidade, ligado ao PCB e ao MDB), esquerdistas radicais (os trotskistas da Libelu – Liberdade e Luta e os marxistas-leninistas da Polop – Política Operária e MEP – Movimento de Emancipação do Proletariado, entre outras correntes). A liderança de Adolfo Dias, presidente do DCE, foi forte e decisiva para a organização do ato, contando com um grupo seleto de auxiliares voluntários. Figueiredo vinha visitar Santa Catarina para forçar sua popularidade. 0 marketing da ditadura estava reinventando o general-presidente. Ele passou a ser tratado como “o João”, um personagem novo, que se pretendia menos ditador mais próximo do povo. Esse era o propósito da vinda ao Estado, amplamente apoiada pelo governo local, Jorge Konder Bornhausen (Arena/PDS) à frente. Houve todo um cerimonial preparativo, com pompas militares e subserviência civil. 0 empresariado foi chamado a participar dos atos de puxa-saquismo. A mídia se integrou ao clima “cívico” da visita presidencial.

Figueiredo, em frente ao Ponto Chic: ele decidiu enfrentar a multidão, mas o protesto só aumentou – James Tavares

 

Mas o sistema não contava com a mobilização estudantil. Na verdade, o sistema subestimou o movimento. Muito cedo, os estudantes já estavam na Praça 15 de Novembro dispostos a contestar aquela farsa que os organizadores pretendiam que fosse uma festa inesquecível para Santa Catarina e para a ditadura. Faixas e cartazes de protesto espalharam-se no me: da multidão. Com inflação em alta, desemprego e falta de perspectivas econômicas e sociais muita gente aderiu à manifestação, engrossando os coros estudantis. A Polícia Militar tentou dissolver os protestos, tentou isolar os grupos mais radicais, mas não conseguiu. Para aumentar a tensão, Figueiredo decidiu descer da parte superior do Palácio Rosado para cumprir a agenda: tomar um cafezinho no Ponto Chic, onde receberia o título de “Senador” popular. Houve corre-corre, empurra-empurra, mas ele chegou lá, protegido por seguranças e pelos bajuladores locais, entre autoridades, políticos, empresários e conhecidos bordejadores.

Placa em homenagem a Floriano Peixoto foi arrancada por populares – James Tavares

Depois, a trupe oficial seguiu para um churrasco em São José. A visita foi um fracasso do ponto de vista institucional, mas representou um passo importante para o processo de redemocratização, que prosseguiria nos anos seguintes com a Campanha das Diretas. A Novembrada foi um marco da resistência civil e democrática ao arbítrio, à ditadura, ao militarismo atrelado à política (e vice-versa).

 

  •  Capa:Aspecto do protesto que reuniu milhares de pessoas em ato contra a ditadura/Foto: James Tavares

Fonte: Carlos Damião. Notícias do Dia

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