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O negacionismo como política de Estado em Santa Catarina

Por Lauro Mattei*

Em outubro de 2018 Bolsonaro se elegeu presidente do Brasil contando com mais de 75% dos votos dos catarinenses. Na esteira da onda bolsonarista conservadora também foram eleitos o governador do estado de Santa Catarina (Carlos Moisés da Silva, um desconhecido oficial aposentado do corpo de bombeiros) e a vice-governadora do Estado (Daniela Reinehr, advogada que se autointitula produtora rural).

Segundo a vice-governadora, os dois foram eleitos porque naquele momento estavam alinhados com as pautas e propostas conservadoras nos costumes e na defesa da família tradicional, além das ideias liberais na economia defendidas pelo então candidato à presidência da república. Para tanto, apresentaram como principais propostas ao povo catarinense o compromisso de trabalhar contra a inversão dos valores morais e éticos; contra a destruição das famílias; contra as deturpações na educação; contra o desrespeito às religiões; contra a falta de liberdade econômica; e contra a corrupção.

Governadora interina Daniela Reinerh e presidente Bolsonaro em evento com mais de 5 mil pessoas na capital, que tinha 90% das UTIs ocupadas – Foto: Julio Cavalheiro/Secom

Em carta datada de 23 de junho de 2020 e endereçada ao governador da época (Carlos Moisés, atualmente afastado temporariamente do governo até que haja uma decisão do processo de impeachment) a atual governadora em exercício afirmou que logo após o início do governo Carlos Moisés se afastou do presidente e descartou o alinhamento direto com a presidência da república. Essa postura significou, segunda a autora da carta, um posicionamento contrário à campanha que os elegeu. Em função disso, ela afirmou que não fazia mais parte da dupla porque não tinha mais como recuperar a confiança que anteriormente depositou no governador Calos Moisés, bem como deixou claro que seus compromissos continuavam sendo os mesmos, uma vez que ela honrava o exemplo de suas origens, as quais fortalecem sua convicção e seus valores. Naquele momento acenou algumas diferenças centrais com o governador, destacando ser a favor da manutenção dos incentivos fiscais aos agrotóxicos, pois sempre lutou por esses benefícios; de uma pauta econômica liberal e contrária ao hospital de campanha para atuação no âmbito da covid-19. Com relação ao hospital de campanha, convém informar que o mesmo sequer chegou a ser construído devido aos problemas de corrupção na esfera de saúde que estão sob investigação em uma comissão especial na Assembleia Legislativa.

Em 23 de outubro de 2020, o governador Carlos Moisés foi afastado temporariamente do cargo até que haja uma decisão definitiva sobre o processo de impeachment. Com isso, no dia 27 de outubro de 2020 a senhora Daniela Reinehr assumiu interinamente o governo catarinense.  Em apenas uma semana se envolveu em várias polêmicas. No discurso de posse, com o lema “Santa Catarina não pode parar”, deixou explícito seu posicionamento em relação à covid-19: é contrária a qualquer medida de lockdown porque, segunda ela, “devemos isolar os doentes e não as pessoas saudáveis” e que “são os médicos quem devem cuidar dos pacientes”. Além disso, afirmou que medidas restritivas sobre a covid-19 devem partir das administrações municipais, até mesmo porque não concorda com o “fecha tudo”, uma vez que suas ações serão de prevenção, sem prejudicar o setor econômico. 

Ainda naquela cerimônia fez questão de apresentar o general de reserva Ricardo Miranda Aversa como novo Secretário da Casa Civil, justificando tal escolha pelo “currículo maravilhoso”, pela “ótima experiência e capacidade administrativa” e também porque ele segue os princípios que ela defende. 

Durante a coletiva de posse causou mais uma polêmica quando foi indagada pelo repórter do The Intercept Brasil que assim se manifestou: “no começo de sua fala a senhora agradeceu a sua família. Seu pai, como professor de história, negou o holocausto, pregando o negacionismo do holocausto. Agora queremos saber qual é sua posição, se a senhora corrobora com essas neonazistas e negacionistas sobre o holocausto?”

A governadora em exercício assim respondeu: “eu realmente não posso responder, ser julgada ou condenada por aquele ou esse pensamento. Eu respeito, volto a dizer, eu respeito as pessoas, independente do seu pensamento, eu respeito os direitos individuais, e qualquer regime que vá contra o que eu acredite, contra esses elementos que eu disse, eu repudio. Existe uma relação e uma convicção que move a mim e a todos os senhores que se chama família. E me cabe, como filha, manter a relação familiar em harmonia, independente das diferenças de pensamento”.

Como a resposta foi extremamente evasiva, no dia seguinte houve cobranças públicas. Tanto a Associação Israelita Catarinense (AIC) como a Confederação Israelita do Brasil (CONIB) exigiram uma resposta veemente de repulsa ao “negacionismo da tragédia do holocausto”.

No dia 29 de outubro de 2020, em nota pública, a governadora em exercício se manifestou da forma como segue: “sou contrária ao nazismo, assim como sou contrária a qualquer regime, sistema, conduta ou posicionamento que vá contra os direitos individuais, garantias de segurança ou contra a vida das pessoas e, sinceramente, pensei ter deixado isso claro quando fui questionada”. Obviamente que ela sabe que não tinha respondido o assunto e que a atual nota é apenas protocolar e pouca embasada em “suas convicções”. Aliás, nessa nota transparece que para essa advogada parece não existir o direito coletivo.

Em 30 de outubro.20, em entrevista ao grupo ND TV (Rede Record) afirmou que está pronta para governar, que irá recuperar as propostas de 2018 e que irá promover um alinhamento com o governo federal que, segundo ela, está muito feliz em tê-la como governadora do estado de SC. Quando questionada novamente sobre a covid-19, reafirmou que nunca foi a favor de fazer lockdown porque não se deve isolar toda a população, bastando fazer a prevenção como foi feito no caso da H1N1, quando as crianças continuavam indo às escolas. Pelo jeito mais um alinhamento com o Palácio do Planalto, pois a pandemia atual lhe soa também como mais uma “gripezinha”. De forma não explícita, defendeu a voltas às aulas presenciais, “mas com cuidado para que as cabecinhas das crianças consigam absorver isso da melhor forma possível”.

Na mesma emissora e no mesmo dia, porém em entrevista a outro repórter, reafirmou que irá resgatar o projeto original que foi esquecido pelo governador afastado, tanto no sentido de recuperar a confiança que foi perdida junto aos eleitores catarinenses, quanto junto ao Governo Federal, uma vez que agora se sente forte para resgatar esse projeto e para se alinhar às diretrizes nacionais que sempre defendeu.

Por fim, deixou transparecer que todos os problemas da gestão administrativa do governo estadual se resumem a “ruídos de comunicação”, afirmando por diversas vezes em várias entrevistas que uma de suas principais diretrizes é o estabelecimento de um canal eficiente de comunicação entre os órgãos internos e externos. Neste quesito, é bem provável que deverá seguir e/ou ser orientada pelo seu “grande guru”.

Finalmente, cabe destacar que nas diversas entrevistas durante a primeira semana de exercício do cargo de governadora do estado não se ouviu uma única palavra de solidariedade às famílias dos mais de três mil óbitos provocados pela Covid-19; pelo desemprego provocado pela pandemia; pela elevação dos preços dos alimentos; pela expansão da fome e da pobreza, etc. Na verdade, transparece que o interessante são os temas da agenda nacional a qual menciona sua intenção de ter um alinhamento mais próximo. Neste caso, não custa relembrar alguns dos assuntos prioritários do sanatório geral que está virando esse país em plena pandemia: porte de armas, ideologia de gênero, regras contrárias ao aborto, prisão em segunda instância, etc.

Por tudo o que se viu até aqui, percebe-se que está livre o caminho agora para o negacionismo que verte nessas mentes com pouca luz, porém agora sob o desígnio de uma política de estado.


Fonte: Folha da Cidade

*Lauro Mattei é professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC. Também atua como coordenador geral do Necat/UFSC e Pesquisador do OPPA/CPDA/UFRRJ.
E-mail: l.mattei@ufsc.br  

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