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O país da carteirada

Por Márcio Chagas (*)

As leis valem para todos. Esse é um dos princípios básicos para a democracia. Somente na teoria, pois na prática não são garantidas para os negros e não negros pobres.

Os privilégios históricos se demonstram na concentração de dinheiro, se mantém pelo sobrenome e são usufruídos através da boa e velha carteirada. Assim é o sistema, e dessa forma se justifica a perpetuação de poder dos netos e bisnetos dos senhores escravagistas, para continuarem fazendo o que quiserem, arrotando seus diplomas e profissões para menosprezar quem ousar questioná-los.

No país do futebol, para um branco em um condomínio, uma ligação resolve qualquer problema. As relações e influências que se adquire através das oportunidades que os privilégios proporcionam, possibilitam tratamentos diferentes, principalmente da polícia.

Se você tem grana pode tudo, se tiver um bom emprego pode esfregar a carteira na cara de alguém e humilhar quem ousar questionar suas atitudes.

A frase “você não sabe com quem está falando” é famosa por aqui.

Que país é esse? Há 500 anos o Brasil dos indígenas é construído com sangue e suor negro para que famílias brancas de elite se beneficiem até hoje.

O corporativismo protege os seus pares. O desembargador liga para um colega, que irá protegê-lo mais adiante, tipo jogada ensaiada, faça a merda que eu limpo depois. Tudo tem um jeitinho, mas tem que pertencer a esta casta.

A velha carteirada de formação acadêmica da elite brasileira vale mais do que a educação em sim. Rasgar a multa e atirar o papel no chão é uma atitude possível somente para quem pertence a esta turma.

Imagina um réu negro não aceitando a pena, pegando a sentença e rasgando na frente do juiz? No mínimo uma pisoteada no pescoço, um mata leão e pontapés seriam os carinhos recebidos pelo desacato.

Outro dia uma mulher branca, ao ser abordada por um vigilante sanitário por não estar usando a máscara de proteção ao coronavírus, também deu uma carteirada: “cidadão não! Engenheiro civil, melhor do que você!!”

Recentemente o motoboy que foi humilhado pelo morador do condomínio de luxo no interior de São Paulo ouviu: “tu é analfabeto, nunca vai ter isso aqui, você tem inveja dessas famílias, você tem inveja dessa cor (branca).”

Esse é o retrato da elite do atraso que se perpetua no poder vendendo o mito da meritocracia para explorar os humildes.

Não se pode entrar no shopping para comprar um presente, os seguranças andam atrás como se fossem adestradores. Na última semana, um jovem foi comprar um relógio para presentear o pai e foi conduzido por dois homens armados para as escadarias, onde ninguém poderia ver, para baterem e o humilharem, mesmo possuindo a nota fiscal, simplesmente por ser negro!

Ser negro no Brasil é nascer fadado a humilhação e violência, você já nasce devendo sem saber o quê, mas uma hora vai pagar de alguma forma.

Quando vejo essas manifestações que são perpetuadas pelos bisnetos dos senhores escravagistas, eu lembro dos tempos em que jogava basquete.

Sempre que jogava contra o Recreio da Juventude, clube de Caxias do Sul, as manifestações racistas eram normais e naturalizadas.

Os árbitros não tomavam partido, por conveniência, e preferiam não se envolver. Apenas diziam: “joga e não dá bola, eles só estão tentando te desestabilizar, você está jogando bem.”

Frase típica dos adversários, e nas arquibancadas, era: “vai tomar banho de clorofila, negro sujo! Tua mãe deve ser faxineira e puta! Deve ser foda ser filho de negra. Tu nunca vai ser nada, eu já tenho grana, meu pai é empresário.”

Quando falamos de privilégios da branquitude, eles se desenham desde a infância, quando são ensinados de que são os donos do mundo e podem tudo, pois nada do que fizerem de errado será punido ou responsabilizado.

Quem reproduz esse tipo de comportamento são pessoas que recebem em casa esses ensinamentos e são estimulados a reproduzirem através de piadas e brincadeiras, pois no ambiente familiar isso é comum.

A desumanização e humilhação de quem não está no mesmo nível sócio-econômico e étnico racial mostra que o diploma universitário e carteira cheia estão acima do respeito. “Sou branco, sou graduado, sou melhor do que você, se resigne a sua insignificância, seu analfabeto”.

As mil faces do Brasil colonial estão sendo escancaradas, a arma usada são os aparelhos celulares, os crimes que sempre foram normais, agora estão sendo vistos através das filmagens.

Mesmo que saibamos que não acontecerá nada, pois as leis e o martelo tem peso somente para a única maioria que tratada como minoria, a população negra, que representa mais de 54%, seguimos lutando. O mito da democracia racial acabou.


Fonte: Sul 21

(*) Ex-árbitro, comentarista esportivo e professor de educação física. Pré candidato a vice prefeito de Porto Alegre pelo PSOL.

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andrade@sintrafesc.org.br

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