Quando foi perguntado sobre sua experiência na área da segurança pública, o novo ministro da Justiça de Temer disse que ela se limitava ao fato de ter sido assaltado. Para dar aquela incrementada no currículo, afirmou também ser sobrinho de duas senhoras que já foram vítimas da violência urbana. Essa declaração dada sem nenhum constrangimento mostra que Torquato Jardim vive numa realidade paralela e, portanto, está em sintonia com o quadro atual da democracia brasileira.

Com essas credenciais, Torquato passa a ocupar a vaga deixada por Serraglio que, não sabemos se já foi assaltado, mas é integrante de um grupo político com vasta experiência em assaltar os cofres públicos. Diferente de Torquato, Serraglio não teve carreira de destaque na área jurídica – muito menos na política –  e a única coisa que o credenciava ao cargo era o fato de ser homem forte de Cunha que, segundo Renan Calheiros, “manda no governo Temer de dentro da prisão”.

Temer resolveu tirar Serraglio do cargo justamente na semana em que foram publicadas conversas de Aécio criticando a fraqueza do ex-ministro, a quem chamou de “um bosta do caralho” por não conseguir domar a Lava Jato. Para evitar que Serraglio voltasse para a Câmara e fizesse com que seu suplente Rocha Loures (PMDB-PR), o Homem da Mala, perdesse o foro privilegiado, Temer tentou empurrá-lo para o Ministério da Transparência. Mas, por algum motivo ainda desconhecido, a manobra não foi bem sucedida. Serraglio negou o convite e reassumiu seu mandato na Câmara. Agora, Loures – o homem que Temer considera ser “da sua mais estrita confiança” –  foi preso e pode virar o mais novo delator da praça. E tudo o que Temer não precisava agora é de outro amigo “falastrão”.

Como se nada estivesse acontecendo, o presidente ilegítimo foi a São Paulo para se reunir com empresários, grandes investidores nacionais e estrangeiros. Diferentemente das reuniões clandestinas que costuma ter com empresários na calada da noite, o jantar aconteceu às claras no Hotel Hyatt. Temer sequer lembrou da crise política e, segundo o Valor, ninguém ali estava interessado nela mesmo:

“Convidados ouvidos pelo Valor disseram que, para a maioria, saber das perspectivas de continuidade das reformas foi mais importante do que eventuais informações sobre as denúncias que envolvem Temer”

Não importa que as pesquisas indiquem que a grande maioria da população seja contra as reformas e deseje a convocação de eleições diretas. Temer tomou o poder com apoio maciço da FIESP e do mercado e é para eles que irá prestar contas. Um presidente de uma empresa estrangeira chegou a bater o martelo: “Se o governo conseguir aprovar a reforma trabalhista, ninguém mais tira ele da Presidência. Porque tudo o que se quer é que as reformas sejam aprovadas”.

Quem também estava despreocupado com o lamaçal na qual Temer está mergulhado era o nosso ilustríssimo prefeito João Doria Jr. Ele, que se mostrou revoltado com a corrupção logo após a divulgação dos áudios da delação da JBS que complicam Temer, não parecia nem um pouco preocupado e fez o que faz de melhor: intermediar a relação entre governo e empresários.

“Temer mostrou-se interessado em ouvir os empresários após seu discurso de cerca de 15 minutos. O prefeito de São Paulo, João Doria, decidiu, então, assumir, o papel de “mestre de cerimônias” e provocar os empresários a falar. ‘Puxa a fila e fala sobre isso’, disse Doria a um executivo que tentava elogiar o trabalho da equipe econômica.”

Enquanto trata moradores em situação de rua como lixo a ser varrido e multiplica as cracolândias pela capital paulista, o homem que diz representar o novo na política busca estreitar os laços entre o empresariado/mercado e o governo das velhas raposas da politicagem. Apostando na desgraça da classe política, Doria vai se apresentar nas eleições de 2018 como um cidadão revoltado com a corrupção, apesar de continuar sendo um bajulador de empresários e de políticos corruptos.

No último dia 17, Doria foi a Nova York receber da Câmara do Comércio Brasil-EUA o prêmio de Personalidade do Ano. O Homem da Mala atravessou o oceano para prestigiar a pataquada do seu aliado político, enquanto pipocavam as denúncias contra ele no Brasil. Loures é amigo de Doria e sempre foi habitué dos eventos promovidos pela empresa de lobby do prefeito.

O Homem da Mala abraça João Doria Jr em evento da Lide. (Foto: Reprodução/Facebook Rodrigo Rocha Loures)

Também vivendo uma vida louca numa realidade paralela, Michel Temer apareceu no Twitter, como se nada estivesse acontecendo, para fazer um anúncio histórico à nação:

Com o crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre em relação ao último do ano passado, Temer quer passar a ideia de que finalmente colocou a economia nos trilhos. O crescimento foi mascarado pela agropecuária, que teve um crescimento de 13% graças à safra recorde de grãos. Diferentemente do ano passado, em 2017 o clima ajudou e a produção de milho e soja teve a maior alta dos últimos 20 anos – o que não irá se repetir nos próximos trimestres.

O presidente comemora o “fim da recessão” fingindo não saber que o consumo das famílias continua caindo e o desemprego aumentando. Ou seja, o país está perdendo de 7 a 1 e ele está gritando “É TETRAAAA!” Aécio é outro que segue convicto numa realidade paralela. Enquanto diversos áudios de suas conversas nada republicanas são divulgados, o mineiro aparece nas redes trabalhando normalmente.

Nem parece que seus parentes foram presos e ele só não está na cadeia porque ainda desfruta de foro privilegiado.

Mas Aécio tem ido além. Em uma das conversas interceptadas, o senador usou as expressões  “motoqueiros malucos”  e “passeio de moto”. A conversa é claramente cifrada e nem o tucano mais fanático acreditaria que o assunto principal é moto. Para a PGR e a PF, os “motoqueiros malucos” são os delatores, enquanto “passeio de moto” significa delação. Mas o mineirinho tem apostado firme na realidade paralela e enviou para STF quatro fotos que provariam que aquela foi apenas uma conversa entre amigos motociclistas.

Então ficamos assim: todo brasileiro tem currículo para ser ministro da Justiça. Doria não tem nada a ver com a velha política. O Brasil saiu da recessão. E Aécio não rouba, só faz motocross.

Fonte: João Filho/The Intercept Brasil