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200 anos da independência. De quem? Para quem? Entrevista especial com Tiago Rogero

Jornalista e idealizador do Podcast Projeto Querino fala sobre como os negros foram propositadamente excluídos da história do Brasil por meio de um projeto político de defesa aos interesses da elite escravista

 

Quando se fala sobre a independência do Brasil, a primeira imagem que vem à cabeça, para a maioria das pessoas, é a cena pintada por Pedro Américo no quadro Independência ou morte. Isso é sintoma não somente de uma falta de conhecimento histórico mais complexo, como também de um sistemático projeto de silenciamento de vozes dissonantes ao discurso oficial. “Foi um processo de ruptura política, obviamente, em que escolhas foram feitas e cujas decisões reverberam até hoje. Algo que procuramos mostrar no Projeto Querino é o peso que a escravidão teve nesse processo”, pontua Tiago Rogero, jornalista e criador do Podcast Projeto Querino, em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

“O nosso propósito foi mostrar as escolhas feitas por pessoas brancas para perpetrar a barbárie que foi a escravidão e não só, pois não é como se depois de 1888, quando fomos aquela vergonha internacional de ser o último país das Américas a abolir a escravidão, a barbárie não tivesse continuado”, explica.

“O medo do Haiti também foi determinante no processo de independência para que pudesse ser um movimento ‘ordeiro’, sem margem para que algo dessa ordem acontecesse. Isso ajuda a entender e explicar por que províncias tão diferentes entre si se uniram em um único estado, que se justifica por um compadrio entre os filhos das elites que acabaram estudando juntos em Coimbra, mobilizados pelo medo de perder a principal fonte de renda que era a escravidão”, complementa.

 

Tiago Rogero (Foto: Reprodução | Youtube)

 

Tiago Rogero é jornalista. Em 2019, foi fellow do International Center For Journalists (A Digital Path to Entrepreneurship and Innovation for Latin America), nos Estados Unidos, com foco na produção de podcasts.

É criador do projeto Querino, que mostra como a História explica o Brasil de hoje. É também gerente de criação na Rádio Novelo.

Idealizador e apresentador dos podcasts narrativos Vidas Negras e Negra Voz.

Venceu o 42º Prêmio Vladimir Herzog, no ano de 2020, em Produção Jornalística em Áudio, com o 5º episódio do Negra Voz. Em junho de 2020, deixou O Globo, após 5 anos como repórter da coluna do Ancelmo Gois, para criar a produtora de conteúdo Negra Voz Produções.

Confira a entrevista.

IHU – Como surgiu o Projeto Querino?

Tiago Rogero – Em 2018 eu era repórter da Coluna do Ancelmo Gois e decidi fazer um podcast voltado para personagens invisibilizados da nossa história, a história do Brasil. Um projeto sobre pessoas afrodescendentes e sobre o cotidiano afrodescendente cuja história de alguma forma se relacionava com essas de pessoas do passado.

 

Com isso comecei o Negra Voz, no jornal O Globo, em 2019. Um mês antes do projeto sair, foi publicado pelo The New York Times o The 1619 Project, que olha para a história dos Estados Unidos com um olhar afrocentrado e reposiciona a data de fundação do país. Com isso a referência deixa de ser a independência, 1776, e passa a ser o ano da chegada dos primeiros africanos escravizados no território. Fiquei muito impactado e encantado com esse projeto, pois é um trabalho jornalístico muito interessante, de muita coragem e que envolveu muito trabalho.

 

 

Naquele ano eu fiz uma fellowship (bolsa que subsidia um estudo de imersão de um aluno) nos EUA e quando voltei conheci o trabalho do Instituto Ibirapitanga, que é uma organização voltada a apoio a iniciativas de promoção à igualdade racial e também de sistemas alimentares. Conversamos sobre a possibilidade de fazer um “1619” brasileiro, com muitas aspas, e aí começamos esse trabalho. São 2 anos e 8 meses nessa jornada, mais de 40 pessoas envolvidas. A Rádio Novelo entrou no começo e foi decisiva para toda a articulação do projeto, assim como nossa consultora em história Ynaiê Lopes dos Santos.

IHU – O Projeto Querino se apresenta como um caminho para “mostrar como a História explica o Brasil de hoje”. Por isso, começamos lhe questionando: como a História explica o Brasil de hoje?

Tiago Rogero – São muitos momentos que explicam por que a gente tem um país com mais de 30 milhões de pessoas passando fome, por que a maioria dessas pessoas são pessoas negras. São muitos momentos que explicam por que a maioria entre as poucas pessoas que detêm a maior parte da riqueza do país são brancas. Há muitos momentos que explicam por que as pessoas brancas têm privilégio. Há vários estudos que apontam que as pessoas negras sofreram mais e foram mais vítimas da Covid-19 em comparação às pessoas brancas e uma série de outras questões, onde encontramos respostas para várias perguntas sobre o Brasil hoje e não somente sobre por que pessoas negras ocupam a maioria dos piores indicativos socioeconômicos, mas por que pessoas brancas ocupam postos de privilégio majoritariamente.

 

O nosso propósito foi mostrar as escolhas feitas por pessoas brancas para perpetrar a barbárie que foi a escravidão e não só, pois não é como se depois de 1888, quando fomos aquela vergonha internacional de ser o último país das Américas a abolir a escravidão, a barbárie não tivesse continuado. Juridicamente foi proibido escravizar, o que foi uma vitória, sempre bom lembrar, dos negros, de pessoas escravizadas, de pessoas livres e óbvio que houve a participação de pessoas brancas no movimento abolicionista, mas sobretudo uma abolição que é resultado da luta de pessoas negras.

 

O nosso propósito foi mostrar as escolhas feitas por pessoas brancas para perpetrar a barbárie que foi a escravidão – Tiago Rogero (Tweet)

 

Tiago Rogero – Quando dizemos isso, não queremos explicar o mundo com uma frase. É importante entendê-la tão somente como uma frase. Não estamos dizendo que isso está gravado em pedra, afirmando que é só a história que explica o Brasil de hoje ou que todo o presente pode ser explicado pela história. Não é isso.

À medida que pensamos os exemplos que citei anteriormente, de uma forma muito explicada, baseada em documentos, em fatos, não tenho medo de incorrer nessa cilada, pois nossos ouvintes e as pessoas que vão ouvir o trabalho são pessoas interessadas em conhecimento e entenderão que não estamos dizendo que o presente é só explicado pela história.

É justamente por acreditar que o presente pode ser mudado que fizemos um projeto como esse, no qual temos investido muito tempo, pois acreditamos que é possível ser um Brasil melhor, um planeta melhor.

 

É justamente por acreditar que o presente pode ser mudado que fizemos um projeto como esse, no qual temos investido muito tempo, pois acreditamos que é possível ser um Brasil melhor, um planeta melhor – Tiago Rogero (Tweet)

IHU – A partir de toda experiência de pesquisa e composição do Projeto Querino, como define o processo do evento de 1822, marco da Independência do Brasil?

Tiago Rogero – Foi um processo de ruptura política, obviamente, em que escolhas foram feitas e cujas decisões reverberam até hoje. Algo que procuramos mostrar no Projeto Querino é o peso que a escravidão teve nesse processo. Embora eu seja jornalista e tenha interesse nisso – eu sempre gosto de frisar que não sou historiador – a versão que chegou inicialmente para mim e para a maior parte dos brasileiros, especialmente quem não é historiador de fato, é uma independência que tem como referência o quadro do Pedro Américo, de 1888, Independência ou Morte ou O Grito do Ipiranga – essa, a visão da maior parte das pessoas.

 

Obra de Pedro Américo, Independência ou Morte | Imagem: Reprodução Google Artes

 

Na verdade, houve muito mais que esse momento, inclusive com a participação de pessoas negras nesse processo, com as várias guerras de independência que foram desencadeadas no Brasil. A mais famosa delas é a Guerra da Independência da Bahia, que procuramos retratar no Projeto Querino, mas também o peso da escravidão nesse processo. Isso tem a ver com a “necessidade” de manter a todo custo a principal fonte de renda e riqueza das pessoas que tinham o poder naquele momento e que continuaram mantendo o poder depois, e cujos descendentes têm o poder até hoje.

Embora eu seja jornalista e tenha interesse nisso, a versão que chegou inicialmente para mim e para a maior parte dos brasileiros é uma independência que tem como referência o quadro do Pedro Américo – Tiago Rogero (Tweet)

medo do Haiti também, com um receio muito grande que pudesse haver uma revolução como no país caribenho. Isso foi determinante no processo de independência para que pudesse ser um movimento “ordeiro”, sem margem para que algo dessa ordem acontecesse. Isso ajuda a entender e explicar por que províncias tão diferentes entre si – e, se pensarmos no Estado brasileiro hoje, que tem muitas distinções regionais, imagine naquela época, quando o intercâmbio entre culturas era muito menor – se uniram em um único estado, que se justifica por um compadrio entre os filhos das elites que acabaram estudando juntos em Coimbra, mobilizados pelo medo de perder a principal fonte de renda que era a escravidão.

 

Uma dessas grandes contribuições é o decisivo trabalho do Manuel Raimundo Querino com o “Colono preto como fator da civilização brasileira”, um livro do começo do século XX – Tiago Rogero (Tweet)

IHU – Quais são as vozes do processo de independência que vocês descobriram ao longo do projeto? Como compreender as questões de fundo que levam ao silenciamento dessas vozes ao longo desses 200 anos?

Tiago Rogero – Eu não uso a palavra “descobrir” porque no Projeto Querino nós não revelamos nenhuma informação. No jargão jornalístico, não “damos nenhum furo” e também não revelamos documentos novos, mas fazemos uma boa sistematização de informações que vêm sendo divulgadas ao longo dos anos, ao longo das décadas. Uma dessas grandes contribuições é o decisivo trabalho do Manuel Raimundo Querino com o Colono preto como fator da civilização brasileira, um livro do começo do século XX.

Ainda que não tenhamos descoberto nenhuma história, pessoalmente passei a conhecer muitas histórias que desconhecia, inclusive de Querino, mas também de Mestre Tito e várias outras figuras, como a própria Laudelina de Campos Melo, cuja história eu conhecia muito por alto e passei a conhecer com mais profundidade. Tem ainda histórias de Chiquinha GonzagaPadre José Maurício e muitas outras que passamos a conhecer.

Um dos grandes trunfos do projeto não é descobrir a roda, mas se basear em muita documentação, muito estudo e fatos, dando as referências de quem foram as pessoas que revelaram essas informações. Quando tais dados são vitais para a elaboração do roteiro, citamos nominalmente os pesquisadores e historiadores e as outras pessoas que de várias formas contribuíram para ela. Estão todas citadas no site, e as referências bibliográficas de cada episódio foram minuciosamente detalhadas.


  • Capa: Reprodução da obra de Arthur Timotheo da Costa, Cabeça de negro, de 1906
  • Edição: Ricardo Machado 

Fonte: João Vitor Santos, Instituto Humanitas Unisinos

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