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Amazônia pode atingir ponto de não retorno em 2029, com mais quatro anos de Bolsonaro

Savanização seria irreversível se bioma perder 25% de sua cobertura vegetal

 

Amazônia é um bioma estratégico não apenas sob o ponto de vista da biodiversidade e para os povos que nela habitam, mas a sua importância extrapola o território nacional com implicações globais na regulação do clima. No atual ritmo de incremento das taxas de desmatamento, não podemos garantir que a floresta como a conhecemos permaneça assim por muito tempo.

Os municípios da região Norte em que Bolsonaro liderou as eleições de primeiro turno em 2022 estão concentrados no “arco do desmatamento”, região dominada por grileiros de terra, fazendeiros, madeireiros e garimpeiros ilegais. Este é o motor do desmatamento ilegal na Amazônia, que vem aumentando desde 2015. Um aumento mais pronunciado passa a ocorrer em 2019 com a posse do atual presidente e a empreitada contra o que ele se refere como “indústria de multas do Ibama”. Nos últimos três anos o aumento médio do desmatamento, segundo o sistema Prodes do INPE, foi de 20% ao ano.

Leia também: Mapa eleitoral inédito comprova aliança entre bolsonarismo e crime ambiental na Amazônia

O professor Dr. Carlos Nobre, um dos mais respeitados climatologistas do país e membro do painel IPCC, foi um dos mentores da teoria do “ponto de não retorno” (ou tipping point). Resumidamente, uma série de estudos espaciais e de campo ao longo das décadas apontam que se a Amazônia chegar a 25% de perda da sua cobertura original, implicações negativas no ciclo de chuvas irão afetar permanentemente a capacidade de regeneração da floresta, levando à sua savanização .

O desmatamento deve ser analisado não somente em relação a área, mas também em relação ao local onde ocorre. A descontinuidade de florestas na Amazônia oriental, região predominantemente bolsonarista, pode interromper o transporte de umidade dos oceanos para o interior do continente. Teríamos, neste caso, a interrupção do ciclo de chuvas que transporta umidade para outras regiões. Os paulistas que também escolheram Bolsonaro como representante e deram quase o triplo de votos para Ricardo Salles em relação a Marina Silva, talvez não tenham conhecimento de quão importante a Amazônia é para o regime de chuvas no Centro-oeste, Sudeste e Sul do Brasil. 

Caso reeleito, com o novo Senado lhe proporcionando maior apoio, Bolsonaro terá facilidade em desmantelar o restante das políticas de proteção ambiental, levando a aumentos ainda mais preocupantes dos níveis de desmatamento. Fizemos uma estimativa considerando o aumento atual verificado em seu governo, de 20% ao ano para um hipotético segundo mandato de Bolsonaro, seguido de um aumento mais moderado de 15% ao ano para os três anos seguintes.

Nesse contexto, a Amazônia Brasileira com seus 4.196.943 km2, chegaria em 2029 a um desmatamento acumulado de 1.068.504 km2, ou seja, 25,5% da sua cobertura original perdida. Esta é de fato uma previsão reducionista ao não considerar a área amazônica pertencente aos outros oito países que a compartilham, com suas taxas de desmatamento bem menores que as do Brasil. No entanto, caso alguém duvide da capacidade de predação florestal, basta verificar o que aconteceu com a Mata Atlântica no Brasil, que chegou a níveis de 93% de alteração.

Assim, o voto em Bolsonaro é um voto de apoio ao desmatamento da Amazônia. Se esta área do arco do desmatamento aumentar, e vai, se Bolsonaro for reeleito, poderemos em pouco tempo observar a savanização de uma parte considerável da Amazônia, especialmente nas suas regiões sul e leste. Este é um fenômeno amplificado pelo desmatamento, atingindo áreas de floresta ainda intacta.

E a floresta já demonstra sinais de enfraquecimento nessas regiões com estações secas cada vez mais longas e quentes. É também observada uma alteração na composição florística dessas áreas, em que espécies higrófitas (dependentes de alta humidade) já estão sendo substituídas por espécies com maior resistência a seca, originalmente mais comuns em biomas como o Cerrado, com características de savana.

Resumidamente, com a redução da cobertura florestal na Amazônia, o transporte de chuvas para outras regiões do país fica comprometido, acarretando em prejuízos para a agricultura bem como comprometendo o nível de reservatórios de água das hidrelétricas, o que significa energia elétrica mais cara e riscos eminentes de apagões. Os extremos climáticos como chuvas descontroladas e concentradas em um curto intervalo de tempo também se tornarão mais frequentes com o agravamento do fenômeno El niño. Vale salientar que todos esses sinais já são percebidos e tenderão a se tornar mais frequentes, em maior intensidade e irreversíveis se atingirmos o ponto de não retorno.

No entanto, nem tudo está perdido. O mundo está atento e no mês passado o Parlamento Europeu aprovou uma nova lei anti-desmatamento com objetivo de controlar a entrada de produtos ligados à destruição de florestas e violações dos direitos humanos em áreas de floresta ao redor do mundo. Para o Brasil, a medida poderá representar sérias sanções econômicas ou poderá ajudar a fechar as portas para desmatadores e violadores, enquanto traz mais segurança para as empresas que produzem sem desmatamento e de forma responsável.

A Amazônia é questão de segurança nacional, de economia, de soberania, de sobrevivência para as gerações atuais e futuras e está sob enorme ameaça interna. Neste cenário catastrófico precisamos encerrar o clico de destruição, substituindo o atual governo (vale lembrar que todos os outros candidatos de oposição à presidência com votações expressivas, acima de 1%, defendem desmatamento ilegal zero), restituindo o Fundo Amazônia, angariando assim recursos e, na alçada da década da restauração ecológica promovida pela ONU, fomentar iniciativas como as do próprio professor Carlos Nobre, o projeto Amazônia 4.0, que visa de forma inovadora promover desenvolvimento socioeconômico na região amazônica tendo como premissa a floresta em pé.

 


  • Capa: Destinação de terras ajuda a impedir chegada do arco do desmatamento a áreas tradicionalmente ocupadas da Amazônia – Carl de Souza/AFP
  • Edição: Rodrigo Durão Coelho

Fonte: Camilo Tomazini Pedrollo* e José Luiz Purri da Veiga Pinto**, Brasil de Fato

*Camilo T. Pedrollo – Biólogo, mestre em botânica pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), atualmente está concluindo doutorado em Manejo de Recursos Naturais pela Universidade de Copenhagen, Dinamarca, em parceria com pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Foi consultor sobre cadeias produtivas de produtos da sociobiodiversidade amazônica.

**José Luiz Purri da Veiga Pinto – Engenheiro florestal, mestre pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), realizou pesquisas com biomassa de raízes, solos e hidrologia na Amazônia, trabalhou com manejo florestal, exploração madeireira, certificação FSC, capacitação de seringueiros, tendo experiêcia nos estados do Amazonas, Pará, Acre e Rondônia.

***Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

 

 

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