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Clara Marinho: servidora pública é nomeada uma das pessoas negras mais influentes do mundo

Especializada em contas públicas, Clara Marinho trabalha hoje na Secretaria Federal do Orçamento, do Ministério da Economia, para garantir a eficácia dos programas de redução de desigualdades

A servidora pública Clara Marinho não é nenhuma celebridade, mas entrou na lista de 2021 dos afrodescendentes mais influentes do mundo. Outros brasileiros (estes sim, famosos) também foram nomeados, como o economista Gil do Vigor, ex-participante do BBB Brasil, a cantora Margareth Menezes e os atores Taís Araújo e Lázaro Ramos. Mas, no setor público, é o nome de Clara Marinho que se destaca.

Em Brasília, a baiana de 37 anos trabalha na Secretaria Federal de Orçamento (SOF) do Ministério da Economia, onde é encarregada de fazer que os recursos públicos sejam destinados a programas de redução das desigualdades de raça e gênero. Ela própria foi beneficiada por essas políticas ao entrar no serviço público por meio de cotas, e é um exemplo do resultado desses programas.

Clara foi premiada na categoria “humanitarismo e ativismo” numa nomeação coletiva dos membros de um projeto da ONU chamado Década Internacional dos Afrodescendentes, de 2015 a 2024. São pessoas selecionadas pelo Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, engajadas na promoção dos direitos dos negros em todo o mundo.

Clara estudou em escola privada no ensino fundamental. “Era uma das poucas negras da escola. Isso é uma (situação) constante da minha trajetória”, diz ela, ao lembrar que era chamada pelos colegas por apelidos pejorativos de “carvão mineral” e “bombril”. “Poderiam realmente ter destruído minha autoestima”, diz. A mãe teve papel fundamental para que isso não acontecesse e de estímulo ao estudo e busca de oportunidades.

O ensino médio foi feito numa escola técnica pública. Depois de cursar administração na Universidade Federal da Bahia, foi morar em Campinas (SP), onde fez mestrado na Unicamp e conheceu o marido, pai dos seus dois filhos.

O ativismo político em defesa da igualdade de raça não era tema muito presente em casa. Mas os pais renovaram depois sua visão sobre o racismo e das dificuldades profissionais que passaram ao longo da vida a partir da atuação dela em defesa dessa agenda.

Clara participou do programa Marielle Franco, criado pelo fundo Baobá após o assassinato da vereadora do Rio. O fundo é o primeiro dedicado exclusivamente à promoção da equidade racial para a população negra. O programa abriu a oportunidade para que ela fosse selecionada para o grupo da ONU.

Virada de chave

Foi nessa época que a “chave” virou e ela percebeu a força de unir os dois lados da sua vida, o de ativista pela causa negra e analista de gestão do governo. “Eu sentia que andava em duas avenidas diferentes”, conta.

Na secretaria do Ministério da Economia, Clara participa das pesquisas capitaneadas pelo Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas (CMAP). É uma agenda nova para tomar as melhores decisões sobre a alocação de recursos.

O Brasil, diz ela, engatinha nesse campo. O País ainda está na fase de produzir relatórios e análises sobre como o dinheiro já empenhado produz efeitos na garantia dos direitos de mulheres e negros. O ideal seria que a preocupação sobre essa agenda surgisse durante a elaboração do Orçamento.

A especialista reconhece que há desafios muito claros de natureza metodológica, porque ainda é muito muito difícil contabilizar como o dinheiro chegou nos lugares e nas pessoas. Outro desafio é evitar a dupla contagem das políticas entre os diversos ministérios.

Mas a servidora avalia que há um caminho aberto para que o Brasil pule da fase de análise para uma de intervenção e aprimoramento dos programas de inclusão. “O que a gente tem hoje e para onde podemos avançar? Não é ainda o que se faz e o que pode ser feito”, diz.

Para Clara, a área de finanças públicas têm uma dificuldade histórica de absorver negros. Essa realidade em si já é uma barreira para a adoção de políticas destinadas a esses grupos. “As mulheres vão para áreas que reproduzem a estrutura do cuidar”, diz. O quadro tem evoluído, mas os avanços são insuficientes. Clara Marinho agora batalha para multiplicar os exemplos como o dela.


  • Capa: Pricilla Castro

Fonte: Estadão Conteúdo/Terra

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andrade@sintrafesc.org.br

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