A poucos dias da votação do segundo turno, o debate presidencial de domingo (18) deveria ter esclarecido os projetos para os próximos quatro anos. Em vez disso, o confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro foi frequentemente dominado por acusações, provocações e ataques pessoais, enquanto questões fundamentais para a população ficaram em segundo plano.

Na Avenida Paulista, um grupo de apoiadores de Flávio exibiu um míssil inflável com uma mensagem pedindo ao presidente norte-americano Donald Trump um ataque nuclear contra o Brasil. A imagem evidencia a banalização da violência e a contradição entre o discurso de patriotismo e um pedido de agressão estrangeira que afronta a soberania nacional.

É nesse ambiente que propostas capazes de modificar profundamente o funcionamento do país correm o risco de ser tratadas como menos importantes do que as "lacrações" produzidas para viralizar nas redes sociais. Que espaço resta ao debate sério sobre decisões que definem nosso futuro?

O que se pretende construir quando a prioridade é reduzir?                       

Flávio Bolsonaro defende um "tesouraço" nas despesas públicas, a extinção de pelo menos dez ministérios, a retomada das privatizações e uma nova reforma administrativa. Sua campanha afirma que pretende preservar políticas sociais, mas essa promessa contrasta com as diretrizes de redução do Estado previstas em seu plano de governo e exige explicações.

O candidato anuncia medidas abstratas, quase mágicas, como a criação de um Ministério da Prosperidade, destinado a reunir programas sociais, qualificação e empreendedorismo. Ao mesmo tempo, integrantes de sua equipe econômica anunciam um ajuste fiscal superior a R$ 200 bilhões, enquanto o plano prevê diminuir o número de ministérios. Quais estruturas serão reduzidas, quais políticas serão preservadas e de onde virão os recursos para alcançar os resultados prometidos?

A concepção de Estado apresentada pela equipe de Flávio Bolsonaro ganha uma dimensão concreta nas declarações de sua coordenadora econômica, Daniella Marques. Em recente entrevista ao podcast G4, ao discutir a reposição de servidores aposentados, ela questionou: "E aí substitui e faz outro concurso pra gente pagar? Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?" A fala reforça a ideologia de Estado mínimo que ignora a importância do papel e da valorização dos servidores e dos serviços públicos para a sociedade.

A mesma lógica de redução de despesas precisa ser esclarecida na saúde. Ao prometer um SUS com "padrão Einstein", enquanto defende cortes no Estado, a campanha precisa explicar como pretende financiar o atendimento universal. Existe uma diferença fundamental entre a lógica da rentabilidade privada e a responsabilidade dos serviços públicos: o interesse coletivo deve estar acima do lucro, especialmente em áreas essenciais, como saúde e educação, que garantem direitos e reduzem desigualdades.

O passado continua presente                                                                      

O Brasil ainda amarga as consequências de mudanças que atingiram direitos e estruturas públicas. Vieram o teto de gastos de 2016, a reforma trabalhista de 2017, a reforma da Previdência de 2019, as restrições a reajustes e concursos durante a pandemia, a tentativa de reforma administrativa pela PEC 32 e a privatização da Eletrobras.

Entre 2017 e 2022, servidores federais atravessaram seis anos sem reajuste salarial geral. A Mesa Nacional de Negociação Permanente permaneceu interrompida e, durante o governo Jair Bolsonaro, a política de contenção de despesas ganhou uma expressão emblemática quando Paulo Guedes comemorou as restrições ao funcionalismo usando a frase "granada no bolso do inimigo".

Mesmo com a retomada das negociações a partir de 2023 e a conquista de reajustes salariais, recomposição de benefícios e acordos de carreira, ainda há perdas acumuladas a recuperar, desigualdades entre carreiras a corrigir e reivindicações de aposentados e pensionistas a atender. Há muito a avançar, e a mobilização sindical segue indispensável.

O futuro não precisa repetir o passado                                                       

O Brasil conhece e ainda sente as consequências de períodos em que direitos foram restringidos, salários permaneceram congelados e conquistas históricas estiveram sob ameaça. Foram anos em que grande parte da energia do movimento sindical precisou ser dedicada à resistência, à preservação das garantias existentes e à tentativa de impedir novos retrocessos.

A proximidade do segundo turno recoloca uma questão fundamental para os trabalhadores e para a sociedade: queremos avançar na conquista de novos direitos ou voltar a um passado recente em que a luta era, antes de tudo, para não perder aqueles que já havíamos conquistado?

O Sintrafesc reafirma sua luta permanente e irrestrita pela valorização dos trabalhadores, pela ampliação das conquistas sociais, pela proteção dos aposentados e pensionistas e pelo fortalecimento das instituições e dos serviços públicos.

Temos um lado, e ele sempre será o dos trabalhadores e da defesa de serviços públicos de qualidade para toda a população.

Retrocesso nunca mais!
 
Juntos Somos Mais Fortes!